"Ratis mortis, urubis pertis" , Safravus

 

Cataplum


Uma voz a mais, a menos.


Na hora de procurar a bio:
Ram Rajagopal


Ler e Ouvir

terça-feira, maio 31, 2005

 
MUDANÇAS NA REFORMA

Pois é, não é que o governo refez a reforma universitária, e mudou quase todos os pontos de contenção! Reserva de vagas, agora só em 2015, ou seja um pepino jogado para o futuro, melhor do que a idéia de 50% começando ano que vem. Provavelmente não vai dar em nada.

Conselhos comunitários aprovando projetos de Física Quântica. Não tem mais. Agora os conselhos terão caráter consultivo, seja lá o que isso quer dizer (provavelmente nada). Esta era a segunda maior idéia de gerico da reforma que agora foi acompanhar a sonda Voyager que este mês chega a fronteira do sistema solar.

Removeram também o controle excessivo sobre as instituições particulares, mas não devem comprometer a avaliação universitária. E para terminar, a única coisa nova é que as Federais agora devem oferecer 1/3 de seus cursos em tempo noturno. Uma boa idéia que depende da contratação de professores tempo parcial, pois só estes se interessam e tem condições de ensinar a noite. Além disso, em alguns locais como a UFRJ, é uma questão de segurança pública também, afinal ficar lá depois das 7 da noite hoje em dia não é moleza...

Mas, por incrível que pareça, a grita generalizada derrubou as idéias de gerico. Ufa!

nóia do Ram em terça-feira, maio 31, 2005/

segunda-feira, maio 30, 2005

 
LE SOL

O sol passou por aqui ontem, por exatamente cinco horas. A cidade fica tão linda quando está ensolarada... Bom, como o dia estava bonito, acabei indo almoçar fora, e fui ao Ajanta almoçar (?!). Restaurante indiano bonzinho e baratinho. Fica na Amesterdã com a 121st, bem pertinho da igreja de St. John Divine. Muito bom para o brasileiro em turismo em Manhattan, que para o bem do seu bolso deve evitar 90% dos restaurantes na região da 42nd St. Ah sim, e o melhor, a comida pode ser pedida com poucos condimentos, deixando mais palatável a pessoas que não toleram condimentos (não estou nem falando de pimenta só).

Outro exemplo de bom e barato, que sempre indico fica na 96th st. com a Amesterdam, o Ayurveda Café. Por US$ 8,50 se come a vontade um cardápio fixo. Ótimo para o viajante, que no fim do dia quer se empanturrar e ir dormir o sono dos justos que visitaram os belos museus da cidade ou empanturraram seus cartões de crédito. Tranqüilamente vale a viagem de metrô até a 96th com Broadway.

Vou ficar é devendo uma ida a peça Spamalot, para o meio da semana. Chuva e muitos turistas que invadiram a cidade por causa do feriado chuvoso de hoje. O memorial day, em memória aos combatentes de todas as guerras que os EUA estiveram envolvidos. Falando nisso, o Brasil tem feriado de Zumbi não é? Mas tem memorial day também ou não? Acho que comemoramos no Dia da República, que é algo completamente diferente e seria em tese equivalente ao 4th of July daqui.

Segundo este site
temos um dia da marinha (sem dia da aeronáutica ou do exército!), dia do marinheiro, dia da "liberdade", dia da confraternização mundial das religiões, dia da árvore, mas nenhum dia para celebrar os soldados que lutaram pelo Brasil durante sua história. Seria uma homenagem aos policiais mortos em incursões contra traficantes, ou aqueles que morreram durante a segunda guerra ou na guerra com o Paraguai. Também para homenagear bombeiros, policiais federais e todos outros que morreram em serviço. Não vou reclamar... Mas sei lá, será que é mesmo necessário um dia da liberdade? Qual o significado? Já se tem dia do Zumbi, dia da libertação dos escravos e fraternidade brasileira (?!)... Só valorizamos o PC-esquerdismo de araque. Não as pessoas do nosso país.

PS: Desculpem, temos sim um dia para honrar os heróis, o dia 28 de Novembro, Dia do Soldado desconhecido. Que coincide com o dia do combate ao fumo, para vocês verem a importância desta data no calendário nacional. A proliferação das datas é até meio ridícula, com "Dia da Criatividade", "Dia Internacional do Cooperativismo", "Dia Mundial dos Discos Voadores" (!!), "Dia do Taquígrafo", "Dia do engenheiro xxx" , "Dia do Artista Plástico e do silêncio e do oftamologista", "Dia do goleiro" (!!), "Dia da liberdade de cultos", "Dia da mãe preta", ... Se fossemos seguir esse calendário, trabalho mesmo só uns 30 dias por ano...

nóia do Ram em segunda-feira, maio 30, 2005/

 
NA CAMA COM O BRASIL

O Brasil só vai a cama com morenas e morenos-burros. Incompreensivelmente, ou compreensivelmente, o Celso Amorim agora bate de frente com o governo Israelense. Para quê? Para apoiar a Arábia Saudita, que sequer mandou seus principais representantes para o encontro de cúpula em Brasília.

Mas ninguém pode dizer que o PT nunca foi assim. A bem da verdade, a governança brasileira não tem a menor imaginação. Eles fazem hoje a mesma política que a Índia fez equivocadamente na década de 70/80. Resultou em um conflito permanente com o Paquistão, que quer um pedaço do solo indiano, a Cashemira. Pela má administração dos conflitos e escolha equivocada de alianças, o tal pedaço de solo é chamado de "Indian occupied Cashmere" com "movimentos separatistas". Nem um, nem outro. O terrorismo é tão grave, que poucos hindus permaneceram por lá, expulsos por guerrilheiros importados através da fronteira. Mas não há dúvidas que o território sempre foi e sempre será da Índia.

Retornando a situação brasileira, agora Celso Amorim ou Lula arrumaram uma rusga com Israel. Sempre que encontramos um país onde a democracia está em primeiro lugar, e a população é em sua maioria extremamente bem educada, não conseguimos entrar em sintonia política. Veja só a lista de países que o Brasil já ignorou ou arrumou rusgas nos últimos 2 anos: EUA, Israel, Chile, México, Argentina e Coréia do Sul. Para que? Para se confinar a apoios a bombas como Venezuela, Cuba, Arábia Saudita e Coréia do Norte.

Se o Brasil quer traçar diretrizes geopolíticas através da oposição aos EUA, e o acesso ao petróleo, que o faça com inteligência. Mas se aliar a ditadurazinhas baratas vis-a-vis países que podem oferecer know-how em diversas áreas, a começar pela tão combalidas educação e saúde, é simplesmente hipócrita. Porque eu nunca vejo o Brasil assinando pactos para troca de conhecimento? Porque eu não vejo Celso Amorim discutindo com o Sharon o envio de brasileiros para estudarem nas universidades israelenses de engenharia, que em dez anos estarão empatadas com as tops americanas, e hoje já são excelentes? Porque eu não vejo Amorim convidando professores indianos para explicarem como desenvolver professores a baixo custo no Brasil? Porque não vejo o Lula visitando o Chile ou os EUA para discutir como melhorar o sistema de desenvolvimento de empresas no Brasil?

São coisas que indianos e chineses fazem sem vergonha, mas que o Brasil jamais fará. Falta este tipo de cultura do avanço no Brasil. Gostamos de pensar que somos a oitava economia do mundo, e portanto que os outros nos escutem. Apoiamos escândalos para mostrar poder. Criamos rusgas desnecessárias para mostrar poder. E no fim, quem sai perdendo? Não é o Lula ou Celso Amorim que podem viajar com o dinheiro do contribuinte, e estarão habitando uma cova daqui a uns 30 anos. É o brasileiro. É o jovem brasileiro, que gostaria e precisa aprender como operar no novo mundo.

Até hoje não entendo. Porque não promover um congresso sobre tecnologia da informação envolvendo todos os países líderes nesta área? Todo mundo quer conhecer o Brasil. E quem conhece, quer partcipar. A maioria dos indianos, chineses, israelenses e americanos que eu conheço teria um prazer enorme de passar um tempo no nosso país. Porque não usa-los para aprender algo? Não há interesse, e finge-se não haver necessidade. Na verdade, só mesmo uma ditadura e suas necessidades militares fizeram o Brasil convidar alguns especialistas para promover intercâmbio de idéias. Depois disso, as universidades mantém alguma coisa, mas os programas oficiais foram muito reduzidos.

O governo brasileiro não entende que o poder deve ser gerido com sutileza e classe. E com muita inteligência. Quem acha que a Índia apoia os EUA indiscriminadamente ou a aliança Índia-Israel se deve a afinidades ideológicas está completamente enganado. É simplesmente perceber o que pode fazer o seu país crescer. E o que provavelmente fará do mundo um lugar melhor. A Índia aprendeu bem sua lição, depois de apoiar o comunismo por mais de 20 anos, e ser presenteado pela Rússia e China armando o Paquistão e vários outros países muçulmanos nuclearmente e com armamentos que em última instância foram para os militantes terroristas, "extra" oficialmente apoiados por governos locais...

A esse tipo de gente que o governo do Lula, pelo visto, quer apoiar... Minha voz não importa. Mas eu garanto que daqui há uns 10 anos, se o cataplum ainda estiver nos arquivos do blogger, este post terá sido premonitório de uma situação patética em que o Brasil está se metendo. Espero que Amorim e cia, não esperem apoio dos árabes, paquistaneses e talvez Chineses em sua busca pela hegemonia da política "terceiro-mundistas". Ao contrário de americanos, europeus, indianos e israelenses, estes países famosamente dão para trás em discussões geopolíticas, sempre mantendo boas relações com os EUA, para não queimar a melhor fonte de informação, dinheiro e tecnologia do mundo. Ou será que vão apoiar o Lula? A troco de que? Banana?

nóia do Ram em segunda-feira, maio 30, 2005/

domingo, maio 29, 2005

 
OS NEO-MOVIMENTOS

Estes neo-movimentos brasileiros, dos deploráveis neo-esquerdismos regionalistas, aos neo-conservadores jovens, são o complemento perfeito para o mundo retórico do brasileiro. No Brasil fica-se no bla, bla, bla. Muito se ouve dos neo-conservadores jovens apoiando e levantando a bandeira norte-americana. Mas quantos se dispõem a vir morar aqui e ralar um pouco para aprender o que realmente faz dos Estados Unidos, os Estados Unidos?

Da mesma maneira, muito se fala do humanismo superficial dos regionalistas, mas quantos se dispõem a arregaçar as mangas e propor opções práticas para lidar com os problemas da escola do próprio filho? Ou no seu trabalho? O brasileiro gosta de ter opinião, mas não gosta de ter que dar sangue por ela. Ou ao menos os jovens brasileiros andam fazendo isso. Uma hora a retórica cansa.

Este blogue mesmo é cheio de argumentos. Mas não valem de nada a não ser que um dia eu resolva agir e tentar mudar alguma coisa, seja para mim, seja para o país a quem devo uma parte de minha formação. É muito fácil se esconder atrás do escudo das palavras, dos artistas de Hollywood, de políticos europeus, de um bom vinho francês e de livros de Dostoiévski. Tão fácil quanto trazer a tona Einstein, Peito de Peru, Millor e qualquer outro intelectual moderno em uma discussão.

Não é obrigação de ninguém mudar coisa alguma. Este é o meu ponto de vista particular. Por outro lado, pessoas que tem opiniões muito fortes, mas que não planejam mudar coisa alguma deveriam se manter calados, porque proferir opiniões fortes sem agir a favor delas gera hipocrisia. E para mim, a hipocrisia é sem sombra de dúvida o pior mal do nosso século. Bom, de qualquer maneira...

De qualquer maneira, nenhuma destas linhas faz muita diferença. Iremos todos voltar a dançar a nossa valsa de sempre, e fingir que proferir opiniões mudará alguma coisa, ou que ganha-se algo além de meia dúzia de amigos que concordam consigo. Que quem escreve está louco por audiência, isso é óbvio, é senso comum. Mas que o ego do brasileiro anda tão maltratado, tão em baixa, que até quando já se tem audiência, se escreve para reciprocar elogios. Raramente para construir alguma coisa... Senão teríamos tantas mentes criativas quanto aquelas que escrevem. Pois é isso aí... No Brasil de hoje falta criatividade entre os jovens... Porque? Porque o sistema está quebrado... Só não vê quem acha que a vida se resume a plantar laranja. Quebra tudo!

nóia do Ram em domingo, maio 29, 2005/

sábado, maio 28, 2005

 
ENQUANTO O MUNDO AVANÇA...

O Bush dança. Como o único legado que terá que responder em vida é se seus seguidores evangélicos o amam ou não, o presidente atual dos EUA apoia posições no mínimo contraditórias, e sendo mais verdadeiro, explicitamente hipócritas. Em algumas áreas, como na pesquisa médica com Células Tronco, os EUA já não são mais os líderes mundiais. Isso em 5 anos de governo Republicano. Em outras, como o programa educacional de Bush são tão ruins, que até estados ultra-conservadores como Utah estão lutando contra a política federal.

A guerra no Iraque desmontou o governo Bush. Atualmente os senadores e deputados republicanos lutam entre si pelo poder, e só apoíam o conservadorismo cristão com olhos para as eleições do ano que vem. Depois disso ninguém sabe... Afinal, metade dos republicanos discordava, até uns 6 anos atrás, da interferência do governo federal em educação ou mesmo disposição dos estados em relação a qualquer coisa, desde aborto até impostos.

As coisas mudam, quando o poder cai no colo... Hoje, os republicanos que massacraram Clinton por oferecer subsídios aos agricultores norte-americanos, oferecem subsídios 2 vezes maior. Os mesmos republicanos que acusaram Clinton de vender os EUA para China, já aprovaram a redução das barreiras para empresas americanas que queiram se estabelecer na China. Também aprovaram no congresso medidas que favoreceram o aumento de investimento de sauditas e chineses neste país.

Infelizmente para os EUA, a guerra do Iraque não foi como esperado... Agora que a grana está vazando, a base republicana está em polvorosa... Tem gente que sabe que terá que viver eleições depois da era Bush.

nóia do Ram em sábado, maio 28, 2005/

 
MÍDIA NORTE-AMERICANA

Alguns números da Fairness & Accuracy in Reporting sobre as tendências da reportagem norte-americana:

1) Das fontes de informação utilizadas em 2001/2002 para as reportagens jornalísticas, restringindo às fontes com inclinações partidárias, 75% das fontes eram Republicanas e 25% Democratas

2)Todas propagandas a favor do aborto foram proibidas pelas 4 maiores emissoras de tevê americanas, em contraste a aceitar propagandas pró-vida

3)Nos programas de mesa redonda que se dizem apartidários, 60% dos debatentes foram Republicanos, contra 40% de Democratas

4) 70% dos indivíduos que recebem as notícias pela Fox acreditam que havia relações entre Al Qaeda e Saddam Hussein, justificando a guerra no Iraque, contra 20% daqueles que recebem suas notícias da PBS

5)Na CBS, onde acredita-se que existe um bias liberal, o CBS News utiliza somente fontes ofercidas pela Casa Branca em 75% de suas reportagens

6)Atualmente em Social Security, o governo americano falsamente divulga que em 2042 o sistema estará insolvente. Segundo o próprio orgão do governo que faz estas contas diz que seria em 2052

7) O governo Bush investiu cerca de 200 milhões em criar uma mídia oficial da Casa Branca. Todo gasto em propaganda da Casa Branca durante o governo Clinton foi menos de 20 milhões

Querendo ler mais, basta ir aqui.

Para quem acredita que existe um bias liberal na mídia americana, está redondamente enganado. Eu particularmente não gosto nem dos republicanos, nem dos democratas aqui. Mas noto que atualmente existe um bias conservador cristão muito mais forte que qualquer bias liberal que houve durante os anos Clinton.

nóia do Ram em sábado, maio 28, 2005/

sexta-feira, maio 27, 2005

 
PÃO DE QUEIJO, CNPQ E TECNOLOGIA

Para quem acha que pesquisa em universidades técnicas não tem mais vez no Brasil, leiam só aqui.
Quem imagina que o objetivo único e final de pesquisa universitária é descobrir "algo útil ao país" está redondamente enganado. Um dos grandes objetivos da pesquisa universitária é dar espaço para o desenvolvimento e formação de pessoas com a capacidade de pesquisar e resolver problemas. É por causa deste grande papel formador que o governo americano financia pesquisa universitária. Não é porque 70 projetos de controle irão resolver 70 vezes problemas essenciais da área. Alguns resolvem, a maioria não. Mas os indivíduos que estiveram na crista da onda, sabem das técnicas, e aprenderam a modelar e analisar sistemas, seguem para carreiras na indústria onde contribuem para gerar ótimas idéias e soluções.

E quando resolvem seguir para o meio acadêmico, contribuem formando jovens profissionais na área, e partcipando de projetos de consultoria que contribuem e muito para o desenvolvimento social e tecnológico de um país. Não fosse por estes doutores e pelo investimento do governo, China e Índia não teriam hoje um ambiente muito propício para o desenvolvimento tecnológico que gera desenvolvimento social. É questão de formação... As vezes temos que olhar além do imediatismo e da superfície para encontrarmos os benefícios. Só para ficar num último exemplo, um amigo meu que aprendeu a analisar rastros de partículas elementares em física nuclear usando algoritmos de ponta, hoje é responsável por projetar sistemas de rastreamento submarino para Petrobrás, que permitam descobrir vazamentos e novos poços com o mínimo de intervenção humana. Ta aí, formação gerando economia.

nóia do Ram em sexta-feira, maio 27, 2005/

 
SE ARREPENDIMENTO ...

Da última vez que vim passar o verão aqui, eu trouxe trocentos livros. Uma mala cheia só deles. De livros técnicos a romances, a filosofia. Muito peso, e acabei lendo mesmo os livros que estavam no apartamento onde fiquei. Uma coleção incrível. Desta vez, resolvi ser mais esperto, e ao invés de trazer trocentos livros, resolvi trazer quatro. Dois técnicos. Da última vez quase não usei os técnicos, usando mais research papers da internet.

Pois bem... Não é que hoje, estava desesperadamente atrás de uma cópia dos "The Elements of Statistical Learning Theory" do Hastie e Tibshirani. Depois de algumas horas de desespero, de ligações para amigos de escritório, resolvi persistir no Google. Descobri que publicaram exatamente o capítulo que eu estava precisando...

Mas, o quarto que alguei não veio com livro algum. Muito menos que os 150 que tinham no quarto anterior, e que o dono gentilmente me emprestou. Com saudades do português, e querendo ler um romance para passar as horas enquanto o programa de computador roda, fiquei me lamentando... Se arrependimento... Bem, se arrependimento matasse, eu não teria descoberto a biblioteca pública de nova iorque. É o apogeu das bibliotecas públicas. Coisa para nerd ter orgasmo. Para intelectual também, apesar destes já terem passado da fase orgásmica. Descobri que foi nessa biblioteca que o famoso Richard Feynman passou horas de nerdice, e que Paul Auster dá um pulinho para fazer não se sabe o que, não sabe com que volume, atrás das prateleiras.

Melhor do que Sex in the City. Quer dizer, para pessoas com pouco dinheiro como eu...

nóia do Ram em sexta-feira, maio 27, 2005/

 
GOTÍCULAS

Está chovendo. O pneu está furado. E eu trabalhando de casa. Ou melhor, esperando o meu programão que leva umas 3 horas terminar de rodar. Enquanto isso, fui dar uma lida no jornal. E me deparei com o Dapieve admitindo que gosta de Claudinho e Buchecha e Kelly Key. Até aí tudo bem, cada um gosta do que quer. Ele ainda faz mea culpa por gostar destas coisas. Eu nem isso faria. Mas no fim se entrega, afinal como crítico musical que tem sua horda de fãs, sua opinião fica avariada pela admissão de que ouve estas coisas. No final diz: que é melhor ouvir estas coisas do que levantar as mãos quando ouve "Turma do Balão Mágico" ou "Trem da Alegria" na carrapeta. Segundo ele, porque cultura pop é o atual. Que espécie de comparação é essa? Só porque ele prefere a gostosa da Kelly Key a gostosa da Simony, não precisa colocar uma no pedestal e a outra na lixeira. Ambas até apareceram na Playboy...

Mas seguindo o critério dele, vou jogar no lixo os cds dos Rolling Stones, Nirvana, e tudo mais. Na verdade tudo que não foi lançado semana passada não pode ser ouvido. Nem deve. Esqueçam do seu passado. Dapieve é o crítico Bu(n)dista: vivo o presente. É mais uma daquelas noções de emboscada, para encontrar uma justificativa para gostar de pop-trash como Claudinho&Bochecha e Kelly Key. Demonstra que os escrevinhadores brasileiros, em sua maioria, não chegaram ainda a termos com quem são... E são capazes dos argumentos mais absurdos para não perderem seus leitores.

Que coisa dotô!

nóia do Ram em sexta-feira, maio 27, 2005/

 
MAGIC NAS ESTRELAS

Não, não vou aporrinhar a paciência de vocês sobre o novo plano Bush de retornar para o Guerra nas Estrelas. Vou é falar do último filme da série que acabei assistindo ontem, no cinema do Magic Johnson! Isso aí, o Magic Harlem. O Magic Johnson tem uma cadeia de cinemas, e adivinhem, começou ela justamente aqui em Manhattam. Na verdade vou ficar só no cinema...

Em primeiro lugar, todas as salas são digitais com sons digitais, e o cinema é todo novo. Na entrada você recebe um folhetinho com um texto enorme. Adivinhem. É uma propaganda de livros! Um capítulo quase inteiro de um livro. Achei bacana, melhor do que receber papeletes com anúncios da Pepsi ou da Coca-cola. Estes você ganha se comprar pipoca. O cinema é excepcionalmente limpo. É até estranho. E cheio de carinhas negros famosos pintados pelos corredores e tal. Acho que o Magic resolveu fazer uma cadeia de cinemas para atender a este público, e quem sabe no futuro exibir filmes direcionados ao mesmo. E finalmente, antes do filme começar, um pequeno trailer que aconselha as pessoas a não trazerem armas para a sala de cinema, a não baterem boca, a não darem porradas uns nos outros e a manterem o lugar bem limpinho. Diferente, não?

Na saída do cinema, os atendentes são muito gentis, e indicam até outros filmes se você quiser. Fiquei tão satisfeito que vou voltar lá para ver outros filmes. A única coisa ruim foi o livro escolhido para a propaganda. Mas quem sabe, da próxima indicam um livro legal. Outra vantagem é que o cinema fica a cinco quadras da minha casa. E ao lado do cinema quase, tem um bom restaurante italiano, que tem uma noite com salsa (!). É um bar-restaurante... A comida é razoável, bem barata. E um grande número de pessoas vai lá para caçar, cuja observação se torna bom entretenimento enquanto a comida não chega.

nóia do Ram em sexta-feira, maio 27, 2005/

segunda-feira, maio 23, 2005

 
ESTRANHEZA

É estranho viajar pela Continental. Não é nada com a companhia aérea, que tem bom serviço, aviões limpos e no geral, funcionários educados. É mais porque aqui nos EUA, o hub da continental fica em Houston. No aeroporto internacional George Bush Sr. É muito estranho pousar no aeroporto de ex-presidente vivo, cujo filho agora é presidente, e construiu o aeroporto novo de Houston e resolveu nomear o pai. Sempre fico um pouco surpreso e assustado quando ouço no sistema de avisos do avião, que estamos nos aproximado do "George Bush Sr. International Airport".

Das coisas mais bizarras do aeroporto é uma estátua do George Bush Sr., toda dourada, com ele segurando o terno sob o ombro, e os cabelos ao vento. Parece um aluno de Yale, ou o Robert Redford num daqueles papéis de advogado-jornalista que faz tão bem. O que causa um embrulho no estômago no caso da estátua é o seu tamanho: quase em tamanho real, mas maior. O suficiente para você perceber o seu lugar na sociedade e o lugar dos Bushes na sociedade. E para evitar tomar o jeito convidativo e caseiro do "Robert Redford" como convite para ter uma conversa de igual para igual...

nóia do Ram em segunda-feira, maio 23, 2005/

 
DE OLHO EM NOVA IORQUE

*Qual a única cidade do mundo que pode se criticar, e ainda parecer capital do mundo? Pois bem, esta ouvi no sistema de anúncios períodicos dos ônibus municipais da cidade: "Dear passenger, New York is a fast paced city. Please exit through the back door and avoid bothering the incoming passengers". Bom, que esta mensagem é para os novos-gringos da cidade, não há dúvida. Mas é ou não bem Nova Iorquino se dizer uma "fast paced city" em que os tais "incoming passengers" irão ficar furiosos e provavelmente te atropelar caso você decida sair pela porta da frente do ônibus. Por comodidade e convenção, mas não regra, a porta da frente é para entrar, e a de trás para sair. Obviamente pode se fazer tudo por ambas, mas esta é a cidade em que cinco minutos representam dólares, acomplishments, rise & fall.

*As nova-iorquinas se vestem bem melhor que as californianas. Por outro lado, tem muitos mais tiques nervosos. E os brasilianites por aqui sofrem de deslumbramentite aguda. Generalizações, generalizações.

*Não é incomum por aqui encontrar homens maquiados de manhã cedo. São os artistas da broadway, da off-broadway e da off-off-broadway indo ou voltando de um dia de trabalho. Para quem não sabe, teatro mesmo, daquele tipo que revelou o Marlon Brando, só mesmo no circuito off-off-Broadway.

nóia do Ram em segunda-feira, maio 23, 2005/

 
BACK TO NYC

Estou de volta a Big Apple, porque como diz o Frank Sinatra, "if I can make it there, I can make it anywhere". O "there" no caso é o laboratório de pesquisas da IBM, o centro TJ Watson. Estarei passando o meu verão por aqui, uma parte trabalhando em estatística, mineração de dados, machine learning, terminando um chocante artigo sobre os padrões de manutenção de sensores de tráfego na California, e a outra parte curtindo "the city that never sleeps".

Estou morando num apartamento, ou melhor num quarto bem grande com internet, na West 121st com a Broadway, bem ao lado do campus de Columbia. Umas 9 quadras dos lugares anteriores onde fiquei aqui. Vamos ver o que vou descobrir na cidade desta vez. Da última vez, além dos loucos de sempre, de aparecer na tevê, e de ter bate-boca no Moma, ouvi muita música grátis. Estive pensando em postar conversas com alguns nova-iorquinos a caráter que conheci por aqui. Vamos ver.

Para quem quiser conhecer a cidade, o verão é disparado a melhor época. Além de você poder economizar uma grana com os shows de graça e os bailes a céu aberto, ainda tem Shakespeare on the park, e muitas outras pepitas. Os nova iorquinos ficam até mais gentis, e você encontra todo mundo na rua celebrando o sol e o calor, como toda gente civilizada deveria fazer.

nóia do Ram em segunda-feira, maio 23, 2005/

domingo, maio 22, 2005

 
EVANGELIZE NOW...

O movimento evangélico é agora considerado o mais bem financiado nos Estados Unidos, ultrapassando os protestantes e católicos. Agora, utilizando seu dinheiro tentam reveter as universidades Ivy Leagues de volta para suas origens cristãs.

Eu não tenho nada com isso. Mas acho um pouco triste ver líderes evangélicos, como o pastor reformado do escândalo Watergate, usando palavras de guerra para descrever o movimento de reconversão. Segundo eles, o estado deprimente atual destas universidades se deve a perda dos valores cristãos.

Fico imaginando como se sentem os professores indianos, japoneses, chineses e judeus que formam a maior parte dos acadêmicos destas universidades, e que por ventura não sejam cristãos. Pode parecer uma das piores formas de fundamentalismo: julgar as pessoas por denominação religiosa, e não por suas idéias, ações e realizações.

É difícil também imaginar um movimento evangélico que ao mesmo tempo defende idéias abstraidas do meio científico, como criacionismo e a existência do céu/inferno, se tornarem novamente dirigentes das universidades Ivy League. A não ser que estas universidades e seus alunos prefiram deixar de ser elite de idéias, para retornar ao século passado...

O incrível é que a proporção de evangélicos nos EUA permanenceu em 25% nas últimas décadas. O que aumentou foi sua influência no sistema, devido ao sucesso financeiro dos seus membros. Hoje, com a Casa Branca ocupada por um evangélico, que abertamente faz políticas direcionadas especificamente aos evangélicos, o poder político-econômico deste grupo de denominações aumentou muito. Católicos e protestantes deveriam abrir os olhos, antes de se juntarem ao oba-oba... Já ouvi de um evangélico, que disse que eu iria arder no inferno por ser hindu, para eu não me preocupar, pois amigos católicos também estariam indo pelo mesmo caminho.

Eu entendo que há uma crise moral na sociedade, que anda sem balisas e ideais para os mais jovens. As pessoas estão confusas e com medo, com a ciência sendo usada como a espada que separa a matéria e nossos desejos, do espírito. Só que acho que esta é uma visão exagerada e distorcida da realidade. A ausência de balisas para os jovens na sociedade se deve ao desenvolvimento de um pé só que aconteceu... As idéias materiais foram bem desenvolvidas. As idéias filosóficas pararam no tempo, e quase nunca foram incorporadas na prática.

Não é meu papel dizer se o evangelismo é certo ou errado. Mas tenho todo direito de me sentir ameaçado quando instituições onde outras pessoas como eu trabalham e estudam sejam objetos do desejo de pessoas que asseguram que irei arder no inferno. Esta espécie de pensamento gera discriminação, e discriminação gera perda de oportunidades por motivos injustos. E isso, para mim é o fim.

Sonho com o dia em que as pessoas dirão que são o que são, que é o verdadeiro conceito de conservadorismo. Se você é católico, evangélico ou protestante ótimo. Siga sua vida, faça suas coisas e faça mudanças no sistema que permitam a você fazer as escolhas que acha corretas para sua fé. Só não force mudanças que façam com que os outros, que não compartilham sua fé, tenham que engolir sem opção. Não é tão complicado. Basta cada um se preocupar com sua própria felicidade, com gostar de viver, do que com controlar o que os outros pensam. Cristo não se preocupou muito com o que os outros pensavam. Simplesmente deu instruções para aqueles que gostaram dele, e queriam sentir a mesma felicidade e liberação.

nóia do Ram em domingo, maio 22, 2005/

 
CERTAS PROPAGANDAS E COMBINAÇÕES DE PALAVRAS QUE INCOMODAM

Certas propaganadas e combinações de palavra me incomodam muito. São muito óbvias, banais. Uma muito comum é "Imagens e xxxx". Procurem no jornal de Domingo, e você verá muitos exemplos disso. Imagens e Palavras, Imagens e idéias, bla-bla-bla e bla-bla-bla. Querem dar a impressão de ser kitsch. Uma espécie de remontagem da vida na Suécia com móveis da Ikea, na nossa linguagem tupiniquim. O português não foi feito para se dizer coisas assim, com brevidade. Certo estava (como diz o Ioda) D. Pedro I, com seu longo nome.

Mas voltando, outros exemplos profundamente irritantes são coisas como "sports for men", "riding the xxxxx", ... Não dizem nada, mas querem dar a impressão de serem coisas de ponta... Ponta do saco se me perguntam. Eu prefiria que as propagandas fossem feitas por poetas. Ia ser ótimo. Novos jogos de palavras, lirismo, e quem sabe até um floreio. Poetas clássicos de preferência. Os poetas ganham mal, e a sociedade está ignorante. Talvez isso corrigisse estes dois problemas.

Não gosto nada quando também tentam intelectualizar uma propaganda. Colocam sempre uns cubinhos de gelo, barras de metal prateado, e frases insuportáveis como "the cutting edge xxxxx" ou "inovando xxxxx". Com aquela página jogada fora, não seria melhor ter um fotógrafo publicando o seu trabalho de arte, acompanhado de um parágrafo do Platão talvez? Era só escolher o parágrafo certo e a foto certa que as pessoas iriam associar a marca a propaganda. Ou alguém acha que na sociedade dos 300 vocábulos, as pessoas lembram de coisas como "cutting edge" e "inovando...".

Outra coisa que me incomoda são as palavras "livre", "leve", "solto" e "rosa" da maneira como são usados nestas propagandas. Acordem aí. Ninguém acredita que papel higiênico e o perfume Debrut de Marchand tem as mesmas características.

Marketing foi inventado pelos Tropicalistas e pelos modernistas. Hoje, vemos o resultado deste horror. Uma Auschwitz mental que se encontra em todos os átomos do universo. No banheiro, no banco de trás do taxi, na sua cama, em qualquer lugar... É um Caetano desnudo te encarando. É um discurso de Gil caindo na sua cabeça. E olha que ainda querem fazer comerciais que se "adaptam" a você... Depois perguntam porque a sociedade gera pessoas desorientadas, paranoícas, cheia de desejos reprimidos e que querem fazer o fundamental em menos de 15 minutos.

Morte aos marqueteiros! Eu não tinha tevê antes, mas aqui no meu quarto em Nova Iorque tem. Depois de 2 anos de desintoxicação, percebi que não consigo mais ver as propagandas. São tão chatas, que quase quebrei a tevê. Desliguei a tevê. Prefiro as minhas próprias fantasias do que comprar a fantasia de outro... E por favor, poupem a linguagem. As palavras são bonitas, e importantes demais, para se tornarem mero mecanismo pavloviano.

nóia do Ram em domingo, maio 22, 2005/

 
ACESSO DE LOUCURA

Pela falta de sono, excesso de viagens, e chuva, as coisas escritas hoje são aproximadamente aletórias. Mas mantendo a tradição, são ou (1) chatas; (2) chatas e reacionárias; (3) reaças mas gostosas. O que me leva a pergunta, digamos assim que você conheceu uma pessoa que é o seu "sonho de consumo" (isso vem lá da sociedade consumista). Digamos que esta pessoa é reaça ou esquerdinha, você ainda gostaria de consumi-la? Ou faria a nerdice de se apegar as idéias que te vieram por falta de ação na atividade humana mais importante para o equilíbrio fiscal?

A resposta, do Star Wars: Use the Force Luke!

nóia do Ram em domingo, maio 22, 2005/

 
QUESTIONÁRIOS ALEATÓRIOS

Da Sigma Álgebra dos Questionários, sortei aleatoriamente 10 eventos atômicos, com medida de probabilidade P uniforme. Sairam as seguintes perguntas, a serem propagadas pela proto-bloguisfera. Depois ainda perguntam porque ninguém lê blogue.

Questionário do Balão Mágico

1) Não podendo sair de uma tirada desconhecida-conhecida, infâme, mas podendo assinar a Playboy, qual dos membros do Balão Mágico você gostaria de ser?

2) O que você levaria para uma ilha deserta: a Simony, uma coleção da playboy, uns livros porque você é nerd, uns dvds, uma tomada, xarope de bom senso, um blogue, a baleia Wally, ou a Cláudia Ohana, porque ela é famosa pelo mato?

3) LSD, Prozac, Coca-Cola ou Café? (os 3 se você for o meu ex-vizinho "Mentes Brilhantes"

4) Tchê-Tchê-Tchereeê-Tchê-Tchê, Paulo-Ticumbucum-ticumbucm-tich-tich-France ou Maradona?

5) Você se considera gente?

6) Lê blogue?

7) Se respondeu sim para 5 e 6, anote -100 pontos e ligue para 0-800-Blo-gCura now! Mas antes responda, desde seu nascimento, você teve mais orgasmos na real ou lendo livros?

8) Você sinceramente gastaria tempo com qualquer atividade produtiva caso estivesse acompanhado(a) do seu "sonho de consumo"? Sinceramente? Fala sério...

9) Não fosse pelo seu ego, você admitiria que anda com que andas, ou prefere dizer quem és?

10) Você gosta da Sigma-Álgebra? Conhece? Não? Como não? Ela é fundamental. Mas caso não, qual a última vizinha(o) pelada(o) que você viu? Foi aquela aos 5 anos de idade? Prozac? Não? Esquece. A sigma-álgebra permite uniões contáveis de eventos. Então para de contar estorinha e vai trabalhar!

nóia do Ram em domingo, maio 22, 2005/

 
MICO-CONTO 2

"Também quero. Filho de Cortazár, mãe de Azdagnar, e tia de Mullet. Queijo coalho com pirão sem dono. Cabra do nordeste. " - Autor, desconhecido.


O micro-conto serve mesmo é para dar idéias para roteiros de filme. Hollywood faz muitos micro-contos: os chamados pitches. Hoje em dia, o pitch também é feito na Bay Area, para conseguir investimentos para sua startup. O elevator pitch é quando você encontra um todo poderoso no elevador, e tem exatamente o tempo de um andar para o outro para propor uma idéia e convencer o cara de que sua idéia vale a pena. Os caras que conseguem os melhores financiamentos para startups e emplacar muitos roteiros para os estúdios são craques nisso. Mas não necessariamente são os melhores empresários ou cineastas/roteiristas. Um pouco como o micro-conto não? Ih, lá vem pedrada... Vejá soh, não necessariamente. Deixei espaço para as excreções, digo exceções.

PS: A famosíssima "value proposition" não é exatamente micro-conto porque não se baseia num enredo, é so micro-marketing. O pitch é um micro-conto porque tem que levar o indivíduo pela "estorinha" da sua idéia... Mas para quem é fã da micro-prática, sugiro a leitura destes livros de negócios. Ensinam muito da arte da brevidade, e também de como puxar o saco de gente importante (fundamental para ser publicado nos dias de hoje).

nóia do Ram em domingo, maio 22, 2005/

 
MICO-CONTO

Foi assim que caiu: ô Paulo, P que o Pariu.


PS: Cataplum!

nóia do Ram em domingo, maio 22, 2005/

sexta-feira, maio 20, 2005

 

HIPOCRISA

Um dia conheci uma garota chamada Hipocrisa. Hipocrisa não tinha esse nome feio por escolha, mas devido a um incidente peculiar nos primeiros anos de sua vida. Seu pai, assim como era comum em sua cidade, havia sido um daqueles indivíduos que lutaram por alguma coisa ou contra alguma coisa, não sei bem. Nem ela sabe porque nenhum jovem realmente sabe de tudo aquilo pelo qual seus pais lutaram. Uma forma de viver em paz, o não saber. A mãe de Hipocrisa era mais simples, não lutou por coisa alguma, uma pessoa bem convencional até. Tão convencional quanto ter uma filha chamada Hipocrisa permite.

O sonho da mãe, realizado, era ter dois filhos e um apartamento na Zona Sul. O sonho do pai, realizado em parte, era ter dois filhos e uma bandeira da qual pudesse se orgulhar enquanto contava a estória de sua vida para seus netos. Faltavam os netos. Mas parte da culpa era dele mesmo, do pai. A filha nunca me falava muito dele, até o dia em que resolvemos que o nome era muito feito e muito longo, e a chamamos de Hipo. Hipo, logo para ela que era magrinha, era um insulto. Começou a chorar.

Fomos tomados de surpresa. Eramos só adolescentes na época, e a coisa do nome não parecia ser muito importante. Mas o Hipo do nome dela já havia feito ela passar anos num psiquiatra enfrentando a bulimia. Afinal, de tanto ser chamada de Hipo, se sentia gorda, enorme. Logo ela que era bem magrinha, igualzinha a mãe. Nós nem sabíamos o que dizer. Ficamos sem graça. Pedimos desculpas, até que alguém soltou um "desculpa Hipocriszazinha", e nisso desatamos a rir novamente. A adolescência é assim mesmo. Mas Hipocrisa surtou.

Começou a gritar desatinadamente: "vocês acham que eu queria ser chamada disso? Hipo, hipopótamo, hipocrisa, crisa? É tudo uma merda! Merda de pai!". E sem ar dizia "desde que eu nasci, desde que aprendi a falar, quando perguntavam meu nome respondia Maria", "Maria! Maria! Mas, não, papai corrigia, é Hipocrisa filha... Até eu acho meu nome engraçado. Ria horas ouvindo Hipocrisa. Até que percebi que aquele senhor realmente me deu este nome!". Depois de um tempo, suada e vermelha, se cansou de gritar. Ela era bem magrinha. Não tinha disposição para gritar por muito tempo. Não conversamos mais sobre o assunto e passamos a chama-la de Maria. Ao menos na presença dela. Quando ela não estava, era Hipocriszazinha mesmo.

Mas foi o Roberto que descobriu o porque do nome. O Roberto foi o corajoso que foi convidar a Hipocrisa para sair. Hipocrisa era magrinha e bonitinha. Mas dificultava qualquer aproximação romântica. Primeiro porque ela era bem estranha, coisa do nome. Gente com nome muito estranho acaba se tornado uma pessoa estranha. Segundo porque era muito difícil ter qualquer fantasia com alguém chamada Hipocrisa. Na época da Angélica, da Luma, ficar imaginando que você teria beijos deliciosos com a Hipocrisa era tiro certo para humor involuntário. E só mesmo americano que gosta de humor involuntário enquanto se pensa em amor voluntário.

Roberto foi atrás de Maria. Hoje, por causa do Roberto, Hipocrisa mudou o nome para Maria. Mesmo assim, por muito tempo ele mentiu para ela dizendo que achava Hipocrisa bonitinho porque ela é bonitinha. Logo ele, que soltou o tal Hipocriszazinha. Mas foi sem querer. E depois que ele aprendeu a origem do nome dela com o Geraldo, porteiro do prédio da Maria, passou a ter dó dela. Muitos amigos meus se lamentam até hoje de não convidar a Hipo para sair, porque Maria se tornou um mulherão. É agora modelo em Nova Iorque. Ninguém sabe que já foi chamada de Hipocrisa, e se soubessem acho que perdia seus contratos. Ou ao menos iriam usar a sua insegurança para reduzir o cachê. O mundo é assim mesmo.

Então, pressionamos o Roberto, na época da escola mesmo, para contar o porque por trás do nome. Por muito tempo nem ele soube. Mas dizia saber. E dizia que não iria contar por amor a Maria. Ao menos na frente dela ele dizia isso. Em particular, ele dizia que não sabia da origem do nome mas estava torcendo para Hipocrisa completar os seus 18 anos e trocar o nome de vez para Maria. Até que um dia Roberto chegou com uma cara que misturava espanto e tristeza para a nossa sessão semanal de totó.

Geraldo, do prédio, havia lhe contado a origem do nome de Maria. Tinha mesmo a ver com o tal "merda de pai!" a que ela se referiu quando surtou. O pai, se vocês não sabem, era um destes jornalistas do Globo. Na época escrevia muitas reportagens e era bem ativo no jornal. Ele foi na escola uma vez, e com orgulho disse que "escrever no Globo é uma conquista para quem já lutou tanto pelo Brasil". Na época não entendi o que ele quis dizer com isso. Nem sabia direito o que era lutar. Pensava que lutar era o que o Daniel San fazia no Karatê Kid ou o que o Saddam fazia contra os Estados Unidos. Mas achava legal que um adulto pudesse chamar escrever num jornal de lutar. Eu poderia ser o Rambo da engenharia, um lutador também. Isso naquela época.

Mas o Geraldo do prédio da Maria não entendia muito destas coisas não. Só que ele sabia da origem do nome. Era fonte segura. Ele estava lá no cartório no dia em que baixou o nome de Hipocrisa. Ele não entendeu direito a estória toda. Mas contava, porque sabia que na sua profissão o que lhe dava acesso era mesmo informação. Por exemplo, por ter contado essa estória do nome para a síndica, ele não foi demetido quando foi pego vendo a Laurinha tomando banho.

Geraldo é corajoso. Ficou pendurado do oitavo andar, fingindo que limpava o vidro, para ver a Laurinha, que por acaso estudava na mesma escola que eu, tomando banho. Ela era bonitinha, mas não me penduraria do oitavo andar. Na escola, o Bruno subiu numa pirâmide de mesas para fazer a mesma coisa, mas viu só a inspetora feia e gorda da escola. Mas isso é outra estória. Ninguém sabe quem denunciou o Geraldo. Parece ter sido um vizinho do prédio do lado. O vizinho achou um insulto um porteiro fazer a mesma coisa que ele estava fazendo.

Bom, mas a estória do nome tem a ver com as tais lutas do pai. Eu vou só reproduzir aqui as palavras do Roberto. Levei muitos anos para entender a estória toda, afinal na época eu não sabia nem o que era lutar, nem porque as pessoas se apegavam tanto a ideologias. Para mim, a tal coisa da ideologia era um jeito bom de estudar pouco para História e tirar uma nota legal. Afinal, assim como o pai da Maria, o professor de História havia lutado. Ele se empolgava muito e ficava até rouco contando da sua luta. Mas na escola queríamos mesmo é saber se a estória que ele tinha uma bola só era verdade. Diziam que perdeu a outra por causa da luta. A lenda da época é que gente com uma bola só ficava meio arredondada por problemas hormonais. Ficava com a voz um pouco fina. E o professor de História tinha a voz um pouco, um pinguinho de nada, fina. Era um pouco arredondado também. Mas hoje sei que isso é mentira, porque o Lance Armstrong não tem voz fina, não é arredondado, nem parece ter problema hormonal, e tem uma bola só.

Pois bem, o pai de Maria chegou ao cartório no centro da cidade, onde a família inteira tinha sido nomeada, para colocar o nome da filha de Maria da Graça. Ele gostou da sugestão da mãe de Maria. A mãe queria um nome bem católico para a filha, porque caía bem na Zona Sul, na tal sociedade. Nunca disse isso para o marido, dizia que a chamava de Maria porque Maria fora uma guerreira pelo filho, e imaginava que assim como o pai, a filha iria ser uma guerreira, uma companheira de luta. O pai de Maria adorava ser chamado de companheiro. Até na escola dizia que todo mundo podia chamar ele de companheiro. Era meio engraçado porque achávamos ele bem mais velho, meio acabado até, e não tinhámos nenhum interesse em comum. Nos queríamos a Angélica, e ele só ficava falando de luta. Só tem uma exceção para a tal regra do companheiro: quando ele se encontrava com uns amigos no restaurante fino de Ipanema. A Hipo nos disse que então era para chamar ele de senhor. O pai dizia que era porque nem todo mundo entendia da luta.

Mas a filha entendia bem. Teve até que viver na pele a tal da luta. Então, vou voltar a estória do nome. O Roberto contou mais ou menos assim. O pai da Hipocriszizinha, o Roberto chamava a Maria de Maria na frente dela, mas de Hipocriszizinha na nossa companhia, chegou no cartório para dar o nome que a família escolheu, Maria da Graça. Foram os três, o pai, a filha e o Geraldo do prédio, para ter uma testemunha. Já haviam chamado ela de Maria desde o nascimento. Por algum motivo, no mesmo dia, o chefe do jornal onde o pai dela trabalhava estava no cartório também. Eles estavam conversando no anexo do cartório, até que o escrivão passou por lá. Parece que o escrivão e o pai da Hipocriszizinha se conheciam. O Geraldo diz que o escrivão disse "como vai a luta companheiro". Mas nisso, o pai da Maria ficou nervoso. Bem nervoso, suando frio. E não respondeu. O escrivão achou estranho, e repetiu, "companheiro de luta, não apresenta o ponga aí não?". E o pai companheiro disse, meio amarelo, esse é o meu chefe da redação do Globo.

O chefe da redação não entendeu direito o que tinha acontecido, mas não ligava muito. Ele nunca tinha partcipado de luta parece. Tinha virado chefe da redação assim que voltou de Paris. Conseguiu o cargo porque tinha um nome que nem Maria da Graça, que agradava bastante a sociedade de Ipanema. Ao menos é isso que contam por aqui. Quando ele passou lá no colégio para dar uma palestra, nunca chamou ninguém de companheiro, e nem falou de luta. Só dizia que todo adolescente deveria conhecer Paris. Mas nós não achávamos isso importante. Queríamos é que ele nos apresentasse a Angélica. Não é que alguns anos depois, divorciado da sua primeira esposa, ele saiu com a Eliana. A Eliana era a substituta da Angélica no SBT. Nessa época ele saiu da chefia da redação do jornal, que acabou ficando com o pai da Maria.

E o que detenou a situação toda no cartório, foi que quando o escrivão arregalou os olhos, o pai da Maria fez "shhh, shhhh", apontando discretamente para o chefe. O Geraldo disse para o Roberto que o escrivão achou isso um desrespeito danado. Eu também acharia. Se alguém é meu companheiro, não tem essa de "shhhh, shhhh", não é? Coisa de "pai merda!" como diz a Maria até hoje. O chefe da redação saiu para cuidar de suas coisas. E ficaram o escrivão e o pai da Maria. O escrivão retrucou, não sabia que você trabalhava no Globo. E HipoPai, era assim que o Roberto chamava o pai da Maria, disse que sim, que era o objetivo da tal luta. Mas o escrivão, chateado, respondeu, o senhor se vendeu ao "sistema". Demorei para entender essa palavra, o que é sistema. Até estudei sistema em engenharia, mas não era esse o significado. Só fui entender quando o Kurt Cobain falou que se sentia vendido ao sistema. Acho que então sistema deve ser jornal, gravadora de disco ou emissora de tevê, que dá muito dinheiro a quem se vende.

Bem, o escrivão disse, o senhor se vendeu ao "sistema". Hipopai, respondeu que não, que continuava sendo companheiro de luta. O escrivão respondeu que se fosse companheiro não teria feito "shhh, shhhh" na frente do chefe da redação, do Ponga. Não me culpem se a descrição da situação está meio simples. Foi o Geraldo que contou assim para o Roberto que contou assim para nós, durante o dia do totó. Nós achamos a estória tão chata na época. Queríamos mesmo é saber se Roberto tinha visto a Laurinha ou a Maria tomando banho. O Hipopai disse que fez "shhh, shhh" porque tinha que ganhar a vida. O escrivão disse que poderia ganhar trabalhando para o Estado, que nem ele. Que era hipocrisia se vender ao sistema. Hipopai disse que não era, que era como se continuava a luta, mas que não podemos sair por aí dizendo o que pensamos para não assustar as pessoas, para ter posição, para mudar o sistema. O escrivão vermelho de raiva disse que posição que nada, o senhor é hipócrita! hipócrita! E o senhor é uma merda de pai! Hipócrita!

Maria no colo do Hipopai ouviu a tudo isso. Ela não se lembrava de nada, até que fez terapia de regressão em Nova Iorque. Entendeu porque chamava o pai de "merda de pai!". Ela contou que foi isso que a liberou do fetiche de só querer sair com homens com o dobro da sua idade. Contou isso numa carta para o Roberto. Na mesma carta dizia que o Roberto tinha sido o único rapaz normal com quem ela saiu. Roberto, casado e com uma filhinha chamada Maria, achou legal receber uma carta assim. Veio mostrar para nós, dizendo que nenhum de nós saiu com modelo alguma. É verdade. Ele foi o que mais perto chegou de sair com a Angélica. Mas na época em que a Angélica era uma adolescente, e só mais ou menos bonitinha.

Da discussão, Geraldo disse que lembra ter ouvido traidor para lá, luta para cá. Mas que no fim, o Hipopai cansado, disse que só gente atrasada que não funciona direito, não entendi bem isso, é que pensa que nem o escrivão. E o escrivão já bem zangado, disse que de tão hipócrita, o nome da filha deveria ser Hipocrisia. Disse que gente assim é que destruía a luta. O Hipopai ficou chateado, porque para ele a luta era a coisa mais importante da sua vida. Até que sua família e o apartamento em Ipanema. Pelo menos ele dizia isso. Mas o Roberto nos disse que assim que ele foi promovido a chefe da redação, vendeu o apartamento de Ipanema e comprou um cinco quartos num condomínio da Barra. Ficou só com um conjugado na Zona Sul, onde ficava aos sábados a noite para lembrar com os amigos as boas épocas da luta. O síndico do prédio do conjugado achava tudo muito inconveniente porque os amigos de luta faziam muito barulho, e sempre ficavam bebados e cantando umas músicas esquisitas. O síndico é muito amigo da família do Bruno, aquele que tentou ver a Laurinha no banheiro da escola. E o Bruno disse que ouviu uma vez o síndico dizendo que o Hipopai além de chato e torcer para o Internacional, também era tarado. Já pegaram ele na janela do conjugado tentando ver a vizinha tomando banho.

Depois da discussão toda, chegou a hora de colocar o nome oficialmente. Hipopai deu o nome de Maria da Graça. Terminada as formalidades, quando foi receber a cópia da certidão de nascimento, no lugar de Maria da Graça estava escrito Hipocrisa. E atrás da certidão de nascimento, uma pequena nota: “companheiro traidor, se você mudar esse nome, eu te detono com o teu chefe! Pai de merda! De filha só poderia ter hipocrisia”. Parece que no meio da raiva ele acabou escrevendo o nome errado, e ficou Hipocrisa. O pai da Hipocrisa ficou com medo de perder seu emprego no Globo e achou mais fácil trocar o nome. Se explicou com a mulher dizendo que por causa do passado de lutas teria que ficar com Hipocrisa. Ou senão, teriam que se mudar para um apartamento no Grajaú e deixar de ir as festas do jornal. A mãe de Maria da Graça sabia que nenhum nome valia tudo isso. Voltar para o Grajaú, jamais.

Até hoje, a cópia original da certidão de nascimento da Maria tem a tal notinha. Ela guardou a certidão como memória do nome antigo dela. Hoje o pai, chefe da redação, tem o maior orgulho da filha. Disse até para o Roberto que a filha está morando no “Upper West Side”, bem de frente ao “Central Park”, lugar de gente fina e intelectual. Eu conheci esses lugares, mas achei bem parecidos com todos os outros lugares grã-finos que eu já conheci. O Roberto, que acabou se interessando por essa estória toda de luta, e começou com judô, e depois seguiu carreira como professor de História, disse ainda que o Hipopai ficou feliz em saber que a luta inspira gente até hoje. Mesmo que no caso do Roberto seja porque por muito tempo ele alimentou a esperança que a Maria gostosona fosse ficar com ele depois de ter se livrado do nome feio. Da última vez que ele e o pai da Maria se encontraram, logo depois dela se mudar para Nova Iorque, ele perguntou que emprego deveria seguir porque achava que a profissão de professor pagava pouco. O pai aconselhou ele a falar menos de luta, e tentar uma vaguinha no Globo, que ele poderia dar uma indicação ali.

Roberto até tentou a vaguinha. Mas quando apareceu lá com a camisa vermelha que ele adorava, e tinha o desenho de um cara barbudo, o tal do Tchê, o Hipopai fingiu que não o conhecia. Disse que a entrevista havia sido um engano, mas que se ele quisesse poderia trabalhar como entregador. Roberto que sempre foi um cara simples e bacana aceitou a bocada de entregador. Na verdade ele queria saber como seria trabalhar num negócio que não exigia tanto dele. E continou fazendo o trabalho em tempo parcial, escondido da mulher, depois que passou a manhã com Laurinha num destes dias de entrega do jornal.

Se um dia vocês encontrarem a Maria em Nova Iorque, só não comentem com ela essa estória da Hipocrisa, ou falem da tal luta. De resto ela é uma pessoa bem tranqüila, e trocou o fetiche de homens mais velhos para homens da mesma idade que chamam ela de “minha putinha de merda”. Como fiquei sabendo disso? Isso é outra estória...



nóia do Ram em sexta-feira, maio 20, 2005/

 
CORAGEM

(1) Arrumar as malas para ir a NYC sábado as 6 da matina. Exige coragem, não?

(2) Escrever uma reportagem qualquer em jornal brasileiro mostrando a verdadeira situação de Cuba, e chamando Fidel de ditador por mais de 40 anos. Exige coragem, não?

(3) Amar. Exige coragem, não?

nóia do Ram em sexta-feira, maio 20, 2005/

quinta-feira, maio 19, 2005

 
TIPO DE PENSAMENTO

É assim que se pensa na Europa
. O cidadão afirma: a Turquia foi uma fiel aliada da Europa na época soviética, contrapondo o comunismo. Mas hoje eles não ajudam em nada. Hoje são um país pobre que só tem a trazer suas dificuldades. Portanto, a Europa não precisa da Turquia para nada. Os Eua até gostariam que a Turquia entrasse na União, para integrar os muçulmanos, para evitar mais um estado terrorista. Mas, a Europa não precisa da Turquia para nada. Afinal, estados terroristas muçulmanos só atacam os EUA, ou quando atacarem qualquer país do mundo, os americanos enviarão suas tropas para nos defender.

É por isso, que a União não gasta nem 20% do que os EUA gastam em militarização. Para que, se a polícia global existe? Mas voltando a Turquia, para que senso de gratidão? Hoje são irrelevantes, que chafurdem na lama os tais turcos muçulmanos. Paiszinho pobre que nem a tradição cristã tem. Claro, ainda defendemos os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Claro, somos fãs dos políticos verdes. Claro, adoramos o Willy, aquela baleia da Austrália. Óbvio, somos amantes do Brasil, do paraíso brasileiro, e temos grande admiração pela Bosta Nova. Mas é tudo só para manter uma aparência agradável. Porque, vejam só, quando econtrarmos um país que apesar de todos os conflitos internos, apoiou o programa europeu, vamos logo dizendo: A europa não precisa da Turquia para nada.

Pode ser verdade. Mas é uma tremenda grosseria. A mesma grosseria que estes europeus acusam os americanos e chineses de exercerem. E obviamente, como sabemos, a tendência do pensamento europeu é exatamente esta: pragmático, oportunista, na forma mais baixa e feroz de capitalismo. Deixem os americanos policiarem o mundo. Integrem meia dúzia de países pobres cristãos, e o resto que chafurde na lama. Afinal, "a Europa não precisa da Turquia".

Estou aqui exagerando, mas mostrando a vocês, que da mesma maneira que existem Karl Roves e ideólogos do exagero nos EUA, eles existem na Europa. Só que por lá todos abafam, ou senão dizem coisas bonitinhas, para depois dar botinada. Por aqui, o pessoal é menos cínico.

Eu tenho muito mais medo de um mundo dominado pelo poderio europeu do que pelo norte-americano. Os norte-americanos respeitam e aceitam diferenças culturais e espirituais. Podem ter lá sua retórica dentro do país, mas nunca impediram véus, templos, e qualquer outra manifestação cultural e religiosa dentro daqui. Já no continente de lá... Imaginem só, porque a Turquia não pode fazer parte da União? Será que é só por ser pobre? Mas a Grécia pode, os fragmentos do leste podem, e a Turquia não? Será que alguém tem alguma dúvida? Sorte de vocês católicos amantes da Bossa Nova. Eu sou amante da Bossa Nova. Azar o meu, I guess.

PS: Um amigo alemão comentou uma vez, que por lá, consideram o brasileiro como um objeto sexual. Podem até falar ladainha sobre o resto, mas é visto como um país para se ter sexo fácil, e arrumar uma empregada... Deprimente não? Eu não queria acreditar na época... Hoje, depois do I-house, e de conviver mais com os tais europeus, já começa a parecer que existe mesmo um contigente razoável de pessoas que pensam assim.

nóia do Ram em quinta-feira, maio 19, 2005/

 
AMPLITUDE VERDE

Estava lendo o jornal hoje, e me deparei com os seguintes números:

Taxa de Juros brasileira 19.75%
Taxa de Juros turca 6.6%
Taxa de Juros média ao Consumidor no Brasil 142.5%
Taxa de Juros média ao Consumidor na Turquia 25%
Taxa de Juros média ao empresário no Brasil 69.5%
Inflação na Turquia 9.2% (1/2005)
Inflação no Brasil 5.1% (meta)

Sei que não tenho conhecimento profundo de economia, e nem mesmo me meto a conhecer a cabeça dos financistas globais. Baseado simplesmente em senso comum, os números acima não são bizarros? São uma sacanagem sem tamanho. Comentei das taxas de juros brasileiras com meu primo uns 6 meses atrás, e ele me disse ontem que já investiu agora uma parte de sua grana num fundo de bonds brasileiros. 20% ao ano, nem ele quis deixar passar. É bem menos risco que o mercado de ações norte-americano, que dá cerca de 10% ano no longíssimo prazo.

Banqueiros são todos oportunistas. Se quisessem o bem da sociedade não estariam lidando com juros, e estorquindo dinheiro através de empréstimos. Numa sociedade competitiva, o banqueiro só sobrevive financiando seus riscos, e assim gerando coisas boas, como investimento em empresas. Na sociedade brasileira, o empresário é otário. Para que investir em ganhar dinheiro, se os banqueiros já lhe garantiram 20% ao ano através dos impostos dos brazucas? Pensamento de C.A., não? É, mas é o bom senso. Ninguém me convenceu ainda a perde-lo.

Entram então os fanáticos por pontos percentuais. Dizem que a inflação no Brasil fugiria de controle. Que o brasileiro não é bom pagador. Que isso e que aquilo. Agora, vocês sinceramente acham que um turco é 3 vezes melhor que um brasileiro? Que a Turquia é um país 3 vezes mais democrático e mais estável que o Brasil? Que a Turquia tem mais recursos naturais que o Brasil para garantir o pagamento de sua dívida? Que a Turquia é auto-suficiente no Petróleo como o Brasil? Que eles têm uma população consumidora de 200 milhões de pessoas?

Agora, queria entender a scanagem maior. Olhem os números lá em cima. O juros para pessoas físicas no Brasil está em 142% ao ano. Ou seja se eu pego emprestado 1 real hoje, em meados do ano que vem fico lhe devendo 2,42 reais. Que moleza hein. Nem o Bill Gates, quando a M$ explodiu em crescimento, tinha tamanha barbada. Mas vamos lá, o juros brasileiro é cerca de 25% ao ano, e portanto o risco associado ao consumidor brasileiro é de 117% ao ano. Fazendo uma conta parecida, o risco associado ao consumidor turco é de 19% ao ano. Ou seja emprestar dinheiro para um brasileiro é 10 vezes mais perigoso do que para um turco. Imaginem que no Brasil só a classe média tem conta em banco. Ou seja, a classe média brasileira é 10 vezes menos confiável que um turco médio. Mas peraí, o PIB per capita (com paridade por poder de compra) brasileiro é US$ 7,600 (2003) e o turco US$ 6,700. Agora sim, está explicado, o turco produz menos per capita, portanto tem que ter menor risco. Afinal, quem produz mais provavelmente trabalha mais, e portanto pode morrer mais cedo.

Só resta entender porque o Itaú é hoje o banco mais lucrativo do mundo. Seus 70% de rendimentos reais do ano passado não é paréo para seus concorrentes de varejo que não estão no Brasil. Imaginem só, num país que cresce a taxas reais de menos de 4% (foi 1% ano passado), um banco ganha 70% de lucro. É ou não ridículo? Porque banco de varejo só ganha dinheiro de uma maneira: organizando empréstimos. Tal qual a prostituição, é uma das atividades mais antigas do mundo. Quando o empréstimo leva a criação de novos negócios ou a pessoas a terem dinheiro para uma casa própria, aí esta gerando uma sociedade produtiva. Só me digam, que indivíduo produtivo irá pegar empréstimos no Itaú a 142% ao ano? Ou a 69% ao ano? Resposta: o John Stein Soros Wu. Especuladores internacionais doidos para ganharem em cima do país.

É vergonhoso que o Brasil já tenha pago a sua dívida externa N vezes, e ainda assim os bancos continuem em cima. É falta total de escrupulos. Mas desde quando banqueiro tem escrúpulos? Eu já trabalhei num banco, e digo e repito: a única coisa que banqueiro quer é ganhar dinheiro. Agora quem não tem escrúpulo mesmo é o político ignóbil brasileiro que endivida sua população para ganhar 4 anos de poder. Não fosse esta raça estúpida que lidera o Brasil rumo ao terceiro fundo, eu teria muita simpatia pela situação do nosso país.

A comunidade internacional é uma grande palhaçada. Os orgãos internacionais não tem interesse algum no brasileiro. Podem dizer o que quiser. Mas se tivessem, já teriam dado um jeito de acabar com a nossa vergonhosa situação, e dar uma chance para os jovens reconstruírem o país. Com uma taxa aviltante destas, como o país poderá ser reconstruído? Como um jovem poderá começar uma empresa? Como um jovem poderá começar jornais e mídias novas sem os vícios destas aí existentes? Como podemos retomar o controle do nosso país, que hoje está nas mãos de gente que não entende nada de nada. Pessoas que infelizmente viveram uma década perdida, e não tem a menor ambição. Os países do mundo afora não ligam para a situação do Brasil. Cada qual mais preocupado com si mesmo.

O que fazer? Eu bolei um plano: vamos oferecer um pedaço do Brasil aos orgãos financeiros internacionais. Peguem um pedaço do Mato Grosso ou do Amazonas. Pronto, é seu, por 99 anos. Façam dinheiro lá agora. Mas a dívida acabou. QUer melhor? Doem Brasília. Pronto, Brasília e seus funcionários são todos seus, JP Morgan. Em valor futuro descontado deve valer aproximadamente o quanto a nossa dívida externa vale. Mesmo que não valha, o Brasil paga o total da dívida a cada 5 anos, devido aos juros palhaços. Depois disso, desapareçam. Não façam canto de sereia para atrair nossos políticos incompetentes. Não venham atrás de pessoas no poder, não se aliem a banqueiros brasileiros. Desapareçam. Porque o poder brasileiro é fraco. Vocês não querem fazer bondades globais?

Ajudem as vítmas do Tsunami. Façam teorias macroeconômicas para explicar a integração européia. Adotem criancinhas em Ruanda. Mas por favor, despareçam do Brasil. Estes financistas internacionais, no Brasil, só atrapalham. Acreditem, sei que é difícil sobreviver sem eles. Mas alguém aí acha que governante brasileiro tem pulso firme, para resistir a tentação de pedir umas doletas emprestadas?

Meu plano é surreal. Assim como a situação. E para irritar aqueles que discordam do bom senso, ainda digo mais, quem vê sentido no que está acontecendo ou sofre de cegueira, ou é muuuito inocente, ou está envolvido no cambalacho. Então vamos começar a negociar. Ou vamos nos revoltar, e aplicar o jeito turco de lidar com as coisas: cortem a cabeça de banqueiros e políticos!

PS: Como o cataplum não liga para banqueiro, não tem medo de banqueiro, não tem empréstimos, nem dinheiro para pagar empréstimos, e acha que são gaviões inteligentes sugando uns políticos amarelões e covardes, aqui vai a mensagem do blogue para eles:
"Eu peido para banqueiro!"

nóia do Ram em quinta-feira, maio 19, 2005/

quarta-feira, maio 18, 2005

 
CRUZADOS

Fui assistir a nova obra-prima de Ridley Scott. Digamos assim que é uma obra-prima, prima bem pobre de seus filmes anteriores. Até agora não entendi qual é a graça de colocar na telona escatologia sanguinária. Para que mostrar em detalhes e em close flechas cravando no pescoço de um cara completamente irrelevante para a trama?

Sim, é a tal plástica da cena. O choque de ver algo assim. Tudo uma grande besteira, pois para que traumatizar ainda mais o homem urbano? Fora isso, o filme sofre de ter uma escalação péssima para o papel principal. Orlando "elfo" Bloom como um torturado filho guerreiro está tão mal quanto o tal bichinho verde novo.

Quanto a apresentar as cruzadas num ponto de vista neutro, o filme até consegue. Mal e porcamente. Sim, porque angariar simpatia para os muçulmanos hoje em dia parece ser crime. Mas uma coisa que precisa ficar clara é que história é história, e hoje é hoje. Um não pode justificar o outro. De qualquer maneira, o filme é ficção.

E o que faltou na ficção foram cenas de batalha mais bem planejadas, e um enredo melhor. Sem enredo, e com cenas de batalha tão enroladas que não se sabe nada do que passou, exceto que um monte morreu de um lado e de outro, deixam o filme chato. Entendo que o diretor queira mostrar como seria estar no meio da batalha. A tal confusão. Mas repetir isso muitas vezes vira chato. Faça uma vez ou outra. Não 50, num filme de 2:40hs, a meu ver completamente desnecessário para o enredo exibido.

Só sei que vai gerar um monte de gritaria o tal filme. Afinal, ninguém gosta quando o seu "lado" é "mostrado" de maneira menos lisonjeira. Para falar a verdade, este tipo de pessoas são muito chatas... Merecem ver este filme.

nóia do Ram em quarta-feira, maio 18, 2005/

 
MICK's BALLAD

Acabei de assistir "Alfie", filminho corriqueiro com o ex-namorado do Mr. Ripley no papel principal, e o melhor, músicas de Mick Jagger na trilha sonora. Não que sejam lá coisas históricas, mas a música "Old Habits Die Hard" é uma daquelas baladas que ficam se repetindo na minha cabeça até encontrar algo mais chiclete.

A música tem algo além da melodia agradável. O refrão "Old habits die hard/ Old soldiers just fade away/Old habits die hard/Harder than November rain/Old habits die hard/Hard enough to feel the pain" parece traduzir muito bem um amplo espectro de coisas que acontecem no mundo hoje. Hábitos. Irrelevância. E medo, medo e dor são quase a mesma coisa.

Quer um exemplo de hábito? Imaginar que o único, ou maior, problema do tal ideal comunista foi o autoritarismo. Isto é minimizar as possibilidades do homem. As pessoas não tem a menor crença hoje no homem místico, em tudo que pode acontecer além da carne, dos ossos e das nossas vistas. A pior coisa, a única coisa, a grande maldade do ideal comunista é matar o espírito humano. Como? De certa forma é uma pergunta tostines. Se você nunca percebeu, não serão palavras que irão traze-la a tona. Se você já percebeu, sabe do que se trata.

Se você nunca sentiu aquele momento sublime, um "aha!", uma espécie de gozo contagiante, então talvez idéias de regimes humanos, de limitar o que o homem possa ser, virá a ser, podem parecer ter sentido. Mas uma pequena experiência do "aha!", e lhes garanto a vida não será a mesma, e pensar na vida como algo meramente material, uma existência de reais no banco, se tornará impensável, inaceitável. Tudo clichê. Mas acho difícil fugir deles quando se toca no assunto.

A verdade é bem simples mesmo: somos ignorantes da possibilidade do homem quando imaginamos uma caixinha para o que ele pode ser. Se você se coloca numa caixinha, isso é problema seu. Quando você coloca os outros em caixinhas, o problema passa a ser meu também. Não quero caixinhas para mim, ainda mais caixinhas de outros. Tenho as minhas próprias, e mesmo estas vou rasgando, testando outras, me livrando de mais algumas e quem sabe sigo assim até encontrar o caixão (infâme, não?!). Prefiro que existam bilhardários, trilhardários, que exista sofrimento, descontentamento, injustiça, e me diga quem já não se sentiu injustiçado, do que caixinhas. A caixinha é o fim do homem.

But "Old Habits Die Hard", e por isso continuaremos vivendo na sociedade da ladainha. A sociedade eletrizada, que vive de tomar prozac para adulto, e prozac para criança, coisa que descobri outro dia. Imaginem-só, prozac para crianças é receitada corriqueiramente por aqui, e cada vez mais no Rio também. Não tenho nada contra psicotrópicos ou tratamento. Acho mesmo que quando uma condição psiquica se estabelece, devemos procurar ajuda. Mas gostaria de saber de onde vem tanta tristeza, dor, decepção e depressão?

Gostaria de saber não, até sei. Mas a receita para cura não é Prozac. É matar os velhos hábitos, e velhos pensamentos. É dar chance a uma maneira diferente de pensar, talvez mais saudável, menos taxativa, menos punitiva. Um amigo meu me diz sempre, sorte dos artistas que vivem livres. Será mesmo? Todos somos artistas. Sorte de quem não sabe o que é. Quem vive fora de caixinhas. De quem não tem medo de arriscar, tentar, errar, continuar, e chega lá pelos tantos que nunca houve, nunca haverá o tal "dar certo". Quem nasceu, já deu certo. Ao seu jeito. Somos cada um, um grande experimento, um laboratório. A única coisa que deve se evitar é lamentar exageradamente pelo que temos ou deixamos de ter. O resto é só viver.

E quem sabe, ter um "aha!" assistindo ao "November rain". Eu pessoalmente prefiro Lopes Mendes ou o Aropoador, ou a praça de St. John Divine em noite de lua cheia, ou estar em meio a amigos, ou resolvendo um problema, ou com minha família, ou, ou ou... Irrelevante? Quem liga?

nóia do Ram em quarta-feira, maio 18, 2005/

 
CATAPLOÍM DETESTA O CATAPLUM!

Blip.

nóia do Ram em quarta-feira, maio 18, 2005/

segunda-feira, maio 16, 2005

 
CONSUMINDO UMA SOCIEDADE

O que fazer para mudar as coisas? Não sei direito. Mas com certeza absoluta, não pode ser defender intervenções impensadas do estado no espírito do homem. Hoje me parece também que não é meramente oferecer educação a 10x4. Ao menos não é somente fazer isso. O que falta para a maior parte das pessoas é oportunidade, e como cria-las de maneira natural parece ser onde apostaria minha energia.

Para mim é bem conveniente acreditar que uma solução universitária ou totalitária resolve o problema. Tenho alto nível de educação, e gosto muito de trabalho acadêmico, por isso tenho certeza que arrumaria uma vaguinha numa sociedade desmantelada de opinião pública onde alguns intelectuais traçam o desígnio de todos . Soluções mirabolantes e planos centralizados sempre precisam de pessoas que saibam verbalizar e tenham um ou outro selo de qualidade para mostrar aos outros.

Mas, com sinceridade, não vejo como tal solução pode melhorar um país. Não vejo como ter mais um ideólogo ou super-ministro ou algo assim vá mudar a situação que toma conta do país. Pelo contrário, acho que o que precisamos mesmo é um capitalismo básico e de verdade, com as pessoas reaprendendo o direito de ser empreendedor. A sociedade de consumo por si só é condenável ou vem sendo condenada. Afinal, um intelectual afeito ao consumo de livros não consegue entender porque outras pessoas preferem consumir outras coisas que o façam crescer menos, e segundo o mesmo intelectual o robotizem. Mas esta é uma visão muito pequena e mesquinha da realidade.

Uma sociedade de consumo de verdade é em primeiro lugar uma sociedade que dá o direito de consumir a todos os indivíduos. Há uma grande diferença entre ter o direito, e escolher não exerce-lo, e ser forçado a conviver numa sociedade onde o direito simplesmente inexiste, ou não alcança boa parte da população. Por incrível que pareça, o direito de consumir também estabelece e fortalece a democracia, porque não há nada mais democrático, independente, e sujeito a diferenças do que aquilo que escolhemos consumir, sejam livros, sejam graus avançados, carros ou viagens.

Em uma sociedade onde o direito não está bem estabelecido, é muito complicado discutir quaisquer idéias filosóficas mais complexas. É complicado ou cruel, afinal enquanto uns bradam por opções, outros engolem seco aquilo que lhe está disponível. Uma sociedade onde inexiste o direito de consumir é uma sociedade espiritualmente morta. Parece um grande paradoxo que espiritualidade, a arte, a alma metafórica do homem, viva em intimidade com uma atividade que é caracterizada hoje como a mais distante, a mais repetitiva e prosaica atividade humana. Mas a verdade é que o direito de consumir é também o direito de se expressar.

As avenidas de consumo abrem as portas para todos, em maior ou menor grau. De alguns fazedores de cesta por necessidade, na Índia, que hoje através de um projeto inovador, vendem seus cestos em supermercados norte-americanos, aos pintores mais cerebrais e sofisticados dos últimos séculos, todos se sustentam de uma maneira ou de outra, no direito de serem consumidos. O direito de consumir é também o direito de ser objeto de consumo.

Quando se fala de consumo, imaginamos logo um shopping-center, onde pessoas correm loucas de um lado para o outro tentando satisfazer necessidades fúteis. Mas o consumo é além do ato de entregar dinheiro, o qual se conquistou de uma forma ou de outra, para ter outro bem. Na verdade o consumo é a troca de um bem por outro, bem este podendo ser uma idéia, dinheiro, sonho ... O consumo é uma referência psicológica do indivíduo: o homem se constrói pelo que consome. Quem opta por pensar, criar, toma partido da forma mais dinâmica possível desta sociedade de consumo. Se suas idéias e pensamentos não forem consumidos, o indivíduo provavelmente não terá meios para continuar existindo como tal. Provavelmente terá que mudar, ajustar, e corrigir o curso até que ao menos um pequeno grupo aceite o que pensa.

Ninguém existe no vácuo. Retornando as bases de uma sociedade duradoura, existe uma confusão muito grande entre o estilo de consumo e o direito de consumo. São coisas bem diferentes. Alguns admiram o estilo de consumo de uma sociedade européia, onde pessoas de idade podem ser sustentadas pelos mais jovens, e estes preferem vinhos a cerveja ou clichês assim. Outros admiram o estilo norte-americano, mais agressivo e escancarado, talvez até mais obviamente plástico. Estes estilos de consumo aparecem até nas universidades, onde volta e meia encontramos expressões como "estilo MIT de pensar" ou "the Berkeley way" para qualificar estilos de consumo de idéias. Mas em todos estes casos, o direito de consumir existe, e está amplamente protegido pela sociedade e pelos governos.

No Brasil há hoje uma dificuldade muito grande: uma sociedade pronta e exposta ao consumo, mas que não tem meios para expandi-lo. A razão principal sempre foi dada como péssimos governantes aliados a uma elite jurássica, e eu acrescento, a uma classe midiática viciada no sonho (ou sono) latino americano da décade de 60. Mas a meu ver, o maior problema é o intervencionismo do estado de forma errônea. Seja durante a ditadura, ou agora no governo Lula, o governo manifesta suas ações através de planos imediatistas que imaginam que o papel do estado é intervir nos pontos de contenção social.

Uma proposta diferente seria abilitar a própria população a curar as suas mazelas. É um processo lento e longo, mas que é facilitado por um governo que menos se imagina um representante de fracos e oprimidos, e mais se imagina como um que quer construir uma sociedade de consumo a longo prazo. Se você diz isso no Brasil, é tachado com as piores alcunhas dos tempos presentes. Mas a realidade é simples, não existe como remover um indivíduo de sua condição de fraqueza e opressão no longo prazo, através de canetadas. Os exemplos abundam na América Latina, e na Ásia, de governos que passaram muitos anos arrigimentando leis e programas para "reigualar" a sociedade. E nenhum dos países de sucesso hoje, daquela leva, tem uma sociedade igual.

Não estou propondo abandonar o pobre a sua própria condição. Estou propondo sim uma mudança no foco do governo, que deve investir pesadamente nas pessoas que tem potencial para terem pequenas e médias empresas. Infelizmente, o mercado financeiro no Brasil é inexistente, e a única maneira de criar uma sociedade de consumo é através de incentivos financeiros simples e claros do governo. Além disso, programas de educação direcionados a ensinar como as pessoas podem administrar um negócio, "fechar as contas", e outras atividades ligadas ao comércio e indústria me parecem ser o caminho mais direito para sair do marasmo atual.

Sei que é um conflito muito grande, com o nosso conceito heróico de salvar as pessoas que sofrem no país de seus destinos sofridos. Só que soluções heróicas acabam sendo boas só no papel. Ainda mais numa sociedade completamente interligada como a de hoje, onde todos tem bem claro a existência do direito de consumir. Mas o sonho utópico permanece, só que transformado. Para ficar no clichê, ao invés de dar peixe, pode se tornar professor de pescaria.

Uma outra medida muito necessária é a decentralização do governo, com uma responsabilidade financeira maior indo para a população, saindo das mãos dos governos federal e estadual.
Mesmo nos municípios mais corruptos, é mais fácil controlar e monitorar as atividades de um prefeito, do que administrar de Brasília todos os gastos financeiros. É muito complicado porque os interesses que estão envolvidos no jogo político são muito grandes. Do PT ao PFL, todos partidos não existem por ideologia, existem hoje para sobreviverem. Para se perpetuarem no poder. E a decentralização enfraquece este mecanismo de longo prazo.

O Brasil não é um país com tradição de investir em conhecimento. Por outro lado, é um país com uma grande história de empreendedores em todos os ramos, da indústria farmacêutica, a tecnologias de ponta, chegando aos esportes e até na política. Talvez valha a pena investir neste jeito brasileiro de ser, ao invés de imaginar que iremos de imediato construir uma França ou um EUA no nosso país. O brasileiro também tem a seu favor o amplo mercado interno de consumo e a existência de recursos naturais aos montes. Como desenvolver estas direções, e como expandir a sociedade é tarefa complicada.

Acredito que devemos ter sim, uma reforma do sistema de educação. O foco deve ser a mudança do conteúdo burocrático e atrasado do material ensinado nas escolas, que não serve nem para formar o aluno mais hábil e intelectual, e nem para formar aqueles que estão mais inclinados a uma vida menos academicamente estimulante. Passa por pequenas mudanças nos currículos universitários, atualizando-os adequadamente, mas sem receitas mirabolantes. E a meu ver, a maior contribuição seria a criação e manutenção de escolas técnicas de qualidade como CEFET no Rio de Janeiro, que são as maiores escadas para a população classe C ter acesso as classes A e B.

Talvez uma pareceria com a iniciativa privada para criar mais escolas técnicas, com grandes descontos em mensalidades para alunos menos favorecidos, e bolsas para os melhores alunos seja uma boa opção. A exigência do nível técnico da escola pode ser conseguido através de convênios com a própria indústria, que funciona no caso como controle de qualidade do formando. Estas são só idéias, mas podemos construir um plantel de idéias para mudar o quadro da educação no Brasil. Acho que melhorar a educação também em jornalismo, história, economia, direito e medicina é muito importante neste momento do país.

Fora isso, acho que uma iniciativa PPP só que para microempresários seria bem melhor do que simplesmente distribuir o dinheiro para medalhões construirem suas avenidas e açudes. Sim, avenidas e açudes são mais confiáveis quando construídas por medalhões, e é muito importante investir na infraestrutura. Mas acho que é muito importante também investir na microestrutura. No surgimento de atividade comercial e empreendedorística em cidades do interior, e nas capitais - o Rio por exemplo tem um grande número de lojas abandonadas. Quantas coisas já poderiam estar sendo feitas, desde uma moda jovem feita para a baixada por jovens da baixada fluminense, até motivar a criação de pequenos entrepostos de turismo e informação numa cidade como o Rio.

Eu imagino coisas como livrarias em pequenas cidades, uma padaria com música e literatura no interior do Mato Grosso, um centro técnico para projeto de software para administração do governo instalado no centro do Rio, e tantas outras idéias que podemos fazer agora que o Brasil tem uma situação econômica mais estável. Não é impossível, mas fica muito, mas muito difícil sem ter um capital inicial, de baixo risco, com um pouco de liberdade para errar. Não adianta querer recuperar 100% dos investimentos, ou imaginar que cada indivíduo vá ter sucesso em sua empreitada, mas não há outra forma a não ser arriscar.

Sei que meus devaneios não necessariamente são receitas prontas e práticas. Mas não creio que estão muito longe de serem propostas plausíveis. É facil imaginar o dinheiro do Banco Mundial sendo investido para criar um centro cultural no Pier Mauá. Porque não incluir então uma pequena fatia para investir em novos empreendores que desejem usar o espaço do Pier? É só ter uma mudança de mentalidade, e acabar com a desconfiança de que um indivíduo vai desperdiçar o dinheiro. É melhor desperdiçar assim, do que com centralismo estatal na adminstração financeira, e os sucessivos rombos e assaltos ao dinheiro público. Eu prefiro 100 reais perdidos apostando numa nova idéia, do que 200 que engrossem os lucros de algum figurão. Pois num país do tamanho do Brasil, com a incipiente atividade econômica que temos, é isso que precisamos: o direito de consumir, de expressar idéias e de errar.

nóia do Ram em segunda-feira, maio 16, 2005/

domingo, maio 15, 2005

 
DE CLAPTON A PEPEU

Ganhei um cd do Eric Clapton de aniversário, um dos melhores presentes dos últimos tempos. Além de adorar o Clapton, o cd contém versões diferentes de vários sucessos. Clapton ainda está em forma, apesar de sua voz estar um pouco cansada no último show em Los Angeles, que assisti no dvd disponível da ocasião. O melhor de Clapton ainda é quando ele desmascara as tragédias ou tristezas de sua vida em levadas pop, ou quando vai de alma e cabeça aos blues, que é a musica americana por excelência para falar de tragédias e tristezas.

Clapton é famoso por suas guitarras variadas que já emprestou para gravações de clássicos do rock como "Money For Nothing" e "While my Guitar Gently Weeps", música de George Harrison para o álbum branco dos Beatles. Para George Harrison guardou uma grande admiração por ele e por sua esposa, para quem compôs a famosa música "Layla". A esposa de Harrison se divorciou, e casou com Clapton. Clapton passou uma parte da década de 80 fazendo música esporádicamente, e com algumas coletâneas, e somente nos anos 90 recuperado de seu vício de heroína, no qual gastava cerca de 3000 dólares por semana, e do alcool, quando consumia 2 litros de vodka por dia, reemergiu com um grande cd de quasi-blues, o estilo agora imortalizado por Clapton em "From the cradle". Por sinal, o disco foi #1 nas paradas americana e inglesa.

Clapton já pagou pela boca, ao defender restrições para imigração de negros a Inglaterra. Mas na música jamais deixou a desejar, sendo considerado hoje o maior guitarrista vivo. Para mim o que marca a guitarra de Clapton é sua versatilidade, podendo tocar ritmos diferentes, com artistas diferentes, deixando ainda assim sua assinatura sonora. Outra característica marcante de Clapton é seu jeito refinado de lidar com as cordas da guitarra, que volta e meia se referia como sendo uma mulher. Talvez daí a suavidade e carinho de "Slow Hands" - apelido que recebeu por seu estilo - com a famosa guitarra Les Paul Gibson, imortalizada pelo artista. Hoje a coleção Stratocaster da Fender, inclui uma versão Eric Clapton, numa série que inclui Steve Ray Vaughan e Jeff Beck. Clapton começou a tocar a Stratocaster depois de conhecer Jimmi Hendrix.

Clapton é conhecido também por ter passado em uma época de "má sorte", quando vários músicos que o acompanhavam morreram em acidentes, bandas se desfaziam em brigas repentinas, e o vício químico do músico atingiu as alturas. A má sorte de Clapton, culminou com a morte de seu filho, que caiu da janela de um edifício em Nova Iorque, pouco tempo depois que o músico havia se recuperado de sua adição química. Hoje "Slow Hands" parece ter saído daquele período.

Infelizmente, nunca fui a um show ao vivo de Clapton. Já vi shows de músicos que tocaram com ele, como Steve Ray Vaughan, e músicos que se inspiraram nele como Jeff Beck. Os únicos shows do próprio que assisti foram em dvd. No palco, a maestria de Clapton com a guitarra, e sua integração perfeita a banda me pareceu algo que o distingüe de vários outros grandes guitarristas. Ao invés do restante da banda ser apenas uma acessório a virtuosidade do guitarrista, o bloco inteiro contribui para formar uma menáge musical. Um amigo meu, fã incondicional de Clapton, gosta de dizer que ele é "o menos egoísta dos grandes", pois permite longos solos de todos membros de suas bandas. O próprio Clapton já disse uma vez que é um "egomaniáco com complexo de inferioridade".

Um dos passatempos de Clapton é colecionar guitarras. Vendeu boa parte de sua coleção e arrecadou 3 milhões de libras para montar um centro de recuperação gratuito para alcólatras e viciados em drogas, na Antígua. Lembrei do Clapton, porque li no jornal hoje que Pepeu Gomes irá expor sua coleção de guitarras. Quem sabe, inspirado num dos grandes, Pepeu também não se anime a montar uma biblioteca musical pública - que seria ótimo para o Brasil de curta memória musical - ou um centro para recuperação de viciados. Pepeu não é nem de perto um Eric Clapton, mas também é um músico tecnicamente recuperado do vício de drogas...

nóia do Ram em domingo, maio 15, 2005/

sexta-feira, maio 13, 2005

 
NATAL DE CADA UM

Sexta-feira, 13 de Maio, e no Brasil noite de lua cheia. Quase parecido com o dia que nasci, uma quinta-feira, 13 de Maio em 1976. O tempo parece que passa correndo, e ao menos para mim, eu gosto que ele passe correndo. Me parece que é um sinal de que a vida está sendo ótima. Esta semana, de provas finais, quase igual as semanas de provas finais que tenho desde o remoto ano de 79 ou 80, não lembro bem. A vida das provas começou numa escola chamada Edél, deu um pulo numa Montessori, passou pelo Colégio Governador, pelo Centro Educacional Jardim Guanabara, e fazendo o segundo grau no Colégio Andrews. UFRJ, Universidade do Texas em Austin, Berkeley e o resto é história.

Lembro que no Edél, além dos deveres de casa serem bem fáceis, adorava o dia de tirar a foto da turma porque ganhávamos um pacote de jujuba e um pirulito delicioso. Gostava muito também dos meus amigos. E acho que isto foi uma coisa que não mudou até hoje. Ter tido a sorte de encontrar amigos que me ensinaram um monte de coisas e compartilharam os alguns dos momentos mais legais da minha vida.

Eu lembro de conversar com o Rodrigo Otávio, e na 8a série decidimos que iríamos projetar o próximo caça brasileiro, e para isso, obviamente precisávamos de um doutorado em engenharia aeronáutica, no MIT. Só mudei de idéia quanto a caças, quando descobri um ano depois que a Embraer estava no gelo, e que o AMX havia sido um desastre. Mas nunca mudei de idéia sobre fazer um doutorado. Lembro também de ter combinado com o Rafael de assistir a um show do Frank Black a qualquer custo depois que chegasse aos EUA, e vários anos depois ter ido na base da sorte a um show para 50 pessoas. O mais legal daquele show, além de pedir músicas dos Pixies, foi relembrar as várias tardes perdidas, ou ganhas, em discussões musicais, copiando cds em fita e assistindo ao Lado B do Fábio Massari.

Acho que o nosso aniversário é uma espécie de Natal particular. Primeiro, porque é o dia em que você pode fazer ou dizer qualquer coisa, e ainda tecnicamente ser tolerado. Segundo porque parece que tudo começa de novo. Não é um reset, mas uma espécie de continuação do filme, só que com possibilidade de troca radical de roteirista. No meu caso, o roteiro já foi trocado radicalmente tantas vezes, tendo em vidas passadas sido banqueiro, engenheiro, vendedor de roupas esporádico e fanático torcedor do Flamengo. Hoje continua, o tal fanático virou torcedor, e o engenheiro virou estudioso esporádico de engenharia.

A receita que eu uso para viver, eu aprendi com minha família. Viajar sempre que possível, receber bem as pessoas na sua vida, conversar com todos e aprender com eles, rir bastante e contar piadas o tempo todo, comer bem, amar melhor ainda, e sempre tentar não se render ao tédio ou a fazer algo que não se gosta.

Pois bem, esta mensagem já virou uma lenga-lenga enrolada, mas foi mesmo para desejar a todos os meus amigos um feliz dia do meu aniversário. Que coisa arrogante não é? Acho que sim. Mas além do fato de eu ser a quarta pessoa mais importante do mundo depois do Budha, do Jesus Cristo, e do Calvin e antes do Bush, do Schumacher e do Aiatolá Kamenei, meu presente de aniversário predileto é passar o tempo de sempre com amigos, amores e amantes. Ta aí porque mesmo nos meus maiores dramas, sempre tem alguém por perto, e no geral acaba em piadas sem muita graça ou em comentários sobre a beleza da cidade mais linda do mundo, o Rio de Janeiro.

PS: Isso é uma outra coisa que eu gosto muito, do Rio de Janeiro. Não é para contar vantagem não, mas cometendo aqui um grande sacrilégio, se Jesus ou Budha tivessem nascido no Rio, duvido que tivessem ido investigar a natureza humana. Para quê, se você pode passar a tarde com amigos nos barzinhos, mergulhar na praia de Ipanema, tomar um chá na Colombo, caminhar pelos meandros do Centro, relaxar no Jardim Botânico, ... Acho que o Gautama seria torcedor do Botafogo, afinal este gosta de saber o que é sofrimento, e Jesus flamenguista, porque é um Senhor campeão. Penta-campeão, por via das dúvidas.

nóia do Ram em sexta-feira, maio 13, 2005/

quarta-feira, maio 11, 2005

 
UMA ONDA
(E continuam os temas prosáicos no Cataplum)

Ando percebendo um comportamento entre as pessoas que partcipam do meu dia-a-dia. Acho que não tem um nome este comportamento. Talvez até tenha, mas como sou um observador da vida humana do ponto de vista da Engenharia Eletrônica e Estatística, não estou familiarizado com o nome. A descrição do comportamento é simples: ler o maior número de livros possíveis.

Já vislumbro as 4 cabeças que leêm o Cataplum, de vez em quando, virando a cara. Não, isto não está acontecendo na sociedade de hoje. Mas vejam só, não é uma questão social, ao menos em termos proporcionais a população. É um comportamento que observo no meu meio de convívio. Um vicío local, mas característico de um mundo onde as pessoas se esbaldam em cacoetes e vícios.

Mas como ler a maior quantidade de livros possíveis pode ser um vício? Se trata de um vício quando o indivíduo lhe diz que leu quatro livros na semana retrasada, que agora está começando três outros e que na semana que vêm já tem uma lista de uns dez outros. Mas depois desta maratona toda, nada parece ter mudado no indivíduo. Nem uma fagulha a mais de inspiração. Nem uma gota maior de reflexão. E muito menos ainda algum avanço mensurável na sua saga para resolver questões existenciais e/ou sociais.

Os títulos se seguem como o Amazonas, incorporando estilos diferentes, épocas diferentes, autores famosos e desconhecidos. Hoje lê um zé-arouca da França, semana que vem começa o Dostoiévski, e na outra um desconhecido Lindino Alfermades, o novo autor da California que se destaca por crônicas concisas passadas num futuro bidimensional, onde todos entendem Deleuze. E não há muito tempo para se absorver o que se leu, e muito menos vontade para se colocar em prática algo que tenha se admirado em tanta leitura.

Claro que a leitura de ficção pode ser um mero exercício intelectual, com a mesma relevância que saber jogar bem xadrez ou resolver pequenos teoremas matemáticos. Mas com certeza, uma dimensão da literatura hoje afeta a vida de todos: o conhecimento é mantido na sociedade através dos livros, portanto naturalmente a melhor forma de manter e expandir a sociedade é pela leitura. Dai, se propaga o mito que o homem ideal deveria ler quatrocentos livros por ano. E daí se criam aquelas listas impossíveis de leitura para as pessoas do segundo grau. E o maior mito de todos, é que ler modificou de maneiras tangíveis a vida das pessoas para melhor.

Cabum! Já ouço o barulho das pessoas vindo com pedras atrás de mim. Vejam só, não é um ataque a literatura, nem a ler livros, nem ao mérito dos livros e das idéias. Já é relativamente óbvio e de domínio público que ler e descobrir idéias novas ajudam o cidadão a ter uma vida mais plena e financeiramente melhor. Mas é uma constatação, que assim como os viciados em máquinas de moedas em Las Vegas, hoje existem muitas pessoas que se "viciam" em ler. O vício é quando se faz por hábito, sem pensar, sem refletir.

Eu mesmo já tive (e acho que tenho) meus grandes vícios: ouvir música e viajar. Na época da plenitude do meu vício musical, eu ia a no mínimo dois shows por semana, lia tudo relacionado a música, comprava intermináveis cds, sabia de cor todos os clássicos do rock, do jazz, catalogava mpb e ainda tirava um tempo para ouvir experimentalismo, ópera e o show daquele cara que mistura música clássica, eletrônica e cordel na pequena igreja do outro lado da cidade. Tudo começou por amar música. A música mudou a minha vida. Fiz amigos novos, conheci lugares diferentes e até hoje, é ainda onde encontro desde sabedoria espiritual até os momentos de inspiração.

Mas como tudo que é interesse, pode acabar se tornando uma compulsão. Ainda mais quando a sociedade retroalimenta todas formas de compulsão. Quanto mais eu ouvia de música, quanto mais eu lia, compreendia, e acumluava cds, as oportunidades para manter tal comportamento iam aumentando. Chegou ao ponto de oficialmente de eu ser em Austin, a referência musical para shows e cds na minha empresa. Só que com o tempo percebi que era uma compulsão. Quando "seria legal ir a" se torna "preciso ir a". Percebi que era compulsão quando senti que a emoção de estar ouvindo música ao vivo havia se esvaido, substituída na minha cabeça por uma mentalidade Gengis Khan: preciso conquistar mais este espaço, entender mais esta obra. Se trata seriamente de compulsão quando a atividade perde a aura de novidade.

Na época foi um grande baque perceber isso. Que havia progredido de um cara que não sabia nada de música as portas de entrar a faculdade, para um colecionador viciado em música. O que me ajudou na época foi lembrar do quanto a música influiu na vida, e de que maneiras. Que os primeiros anos foram fantásticos, descobrindo coisas que eram óbvias para todos, mas que me emocionavam profundamente. De encontrar identificação em um Nirvana ou Smashing Pumpkins, e depois com o tempo pegar o gosto por Beatles, e daí para ter sua imaginação completamente orgásmica ouvindo Sketches of Spain do Miles é um pulo. Lembro das grandes idas ao Free Jazz, curioso para descobrir blues e as novas caras do Jazz. Ou ainda de ter entrado em outro universo a primeira vez que fui a Ópera no Municipal ou no primeiro show que assisti fora da praia e do "circuito" cultural indiano, o show dos Beastie Boys no Méier.

Então em um show de Jazz me dei conta que havia ido ali por hábito, que a música não me fazia sentir nada, e que eu estava meramente colocando aquele som no meu grande catálogo, que a fonte de prazer havia se tornado saber que o catálogo aumentava. Por um ano e meio quase não fui a shows, e parei de acompanhar música. Dei um tempo, para voltar a venerar o som. Hoje, já não tenho mais a compulsão. Uma vez ou outra vou a um show que pareça interessante ou alguém que ouvi no rádio e me emocionou. De certa forma até perdi a necessidade de navegar em referências, apesar de é claro, ter tido o tal período. Só que ficou uma seqüela do período da compulsão: é mais difícil me encontrar com a alma da música. Coisa que era ridiculamente fácil para mim antes.

Pois então muitos ao meu redor tratam ler da mesma maneira. Acho que toda atividade intelectual exige um tempo de maturação. Um livro muito bom só amadurece na nossa cabeça alguns meses depois de ser lido, quando as idéias apresentadas forem sendo absorvidas ou contestadas. Ler muito e em série satisfaz profundamente o ego do colecionador asiático. Mas não acho mesmo que tenha algum papel na formação de idéias de uma pessoa. Afinal, com tantos livros sendo livro, quando será que há o espaço para o seu espírito se mesclar ao que foi lido? Para que aquelas idéias misturadas as suas próprias formem você? O livro se torna banalizado. E de certa forma, a vida também.

Este é o lado do vício que é o mais assutador. O objeto de vício se torna banalizado. E quando se trata de suas idéias e emoções, a pior coisa que poderia acontecer é a banalização. Quando se banalizam, as pessoas passam a agir mecânicamente, e tornam o ambiente monótono e sem brilho. Os apedrejadores dirão que estas qualidades são todas estilísticas, não palpáveis. Mas uma observação palpável é o sem número de pessoas que me diz que a vida é monótona ou que parece tão perdida em conflitos intelectuais que não percebe as coisas legais que poderia estar fazendo e partcipando.

No fim das contas, todo vício é um escudo para nossas dificuldades e dúvidas. Um escudo químico talvez, mas no plano psicológico, funciona como um escudo. O problema deste escudo é que com o tempo nos acomodamos ali dentro, e o vício se torna uma banalidade. Imaginem agora quando músicas ou idéias parecem banalidade para alguém. A vida realmente perde a graça. E a pessoa se torna confusa, triste, deprimida e passa a ser acompanhada de todas outras emoções difíceis que se instauram nestes momentos.

Até hoje me surpreendo ao ouvir alguém dizer que gostou de "Of Human Bondage", mas que não mudou nem um pouco a sua maneira de ser. Ou que leu todos os livros do Machado, mas não sentiu nem um pingo de raiva das fraquezas do homem ou ainda das arbitrariedades que estão acontecendo do outro lado da rua. Eu lembro que no apogeu do meu amor pela música, o mais legal era levar amigos a descobrir músicas e estilos que eles não conheciam, mas que acabavam se apaixonado. Era ajudar a organizar uma tarde musical na faculdade ou marcar presença no show do flautista indiano lá em Jacarepaguá, sob chuva.

Eu ainda leio com muita veneração. Não pelo autor do livro, mas pelo livro em si. Os livros mais interessantes ao menos. E tento não me ater a mentalidade viciada de ler tudo de tudo, de querer conhecer tudo. Quando posso, e tenho tempo, leio clássicos mas com grandes intervalos entre eles. Lembro até hoje de quando li "O Idiota" de Dostoiévski, um pocket book amarelado, presente do meu pai. Lágrimas acompanhavam as páginas em que Mishkin ia sendo enganado por si mesmo e por aqueles ao seu redor. Mudou muito a minha maneira de ver a sociedade, e o que as pessoas dizem. Mas por outro lado, com o tempo fui percebendo que é possível ultrapassar a dose de cinismo apresentada na sociedade e se conectar com as pessoas. Para mim, Dostoiévski acabou abrindo uma porta inesperada: valorizar as pessoas que estão ao meu
redor. Passei vários meses sem ler depois de ler "O Idiota".

Este post, assim como vícios e hábitos, não tem um fim pronto. Não é um argumento fechado. Foi mais um sinal amarelo para um hábito que vejo entre aqueles ao meu redor. A pior coisa de um vício, de um hábito, é o pensamento automático, a banalização. De certa forma, a banalização do ato de aprender e dar tempo para incorporar o que se aprende está formando uma sociedade crônicamente insegura e cínica. E recheada de pessoas que sabem respostas para tudo, mas não para suas próprias perguntas. E que em sua maioria não parecem se divertir com o ato de estar vivo...

PS: Talvez uma das maiores consequências da banalização do ler seja a dificuldade que os novos escritores tem para criar livros. Quando os tipos observados em livros se tornam comuns, a sociedade se torna comum, o autor tem imensa dificuldade em imaginar personagens míticos, inesquecíveis. Descobrir um herói em alguém ordinário, ou uma novidade em uma situação corriqueira e depois transformar com talento em páginas de livro é para mim uma das grandes qualidades dos melhores escritores... Mas eu não leio o suficiente para que minha opinião tenha algum peso.

 

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